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18 abril 2010

Blood, sex, attraction & flamengo por Eduardo Pastore



- A única coisa que importa é passar a impressão que se tem confiança. Você passa metade da sua vida aprendendo a fingir que tem confiança.

- E depois que você aprende?

Depois de ontem, tenho uma nova teoria: as flamenguistas pesam sete quilos a mais que as outras torcedoras. Tudo bem, a teoria não é bem essa, porque isso na verdade é um fato, basta contar o tanto de mulheres flamenguistas usando tops da década de setenta que se acabam, sem mais nem menos, no meio de lautos buchos, belas e gigantescas barrigas de lama.

A minha teoria é sobre ontem. Ontem, festa vermelho-sangue, festa de São Jorge, calhou de estarem no mesmo lugar todos os meus potenciais affaires. Pelo menos as garotas que mais ocupam espaço na minha agenda mental. Como o livro que estou lendo atualmente é sobre a teoria da aleatoriedade, consideraria que este evento foi, do ponto de vista da probabilidade, razoavelmente raro. Não fosse o fato de não haver outra coisa a se fazer na cidade além daquela balada.

Esse encontro, portanto, era bastante previsível, levando em conta o que aconteceu antes do evento:

  • O Flamengo foi campeão.
  • O Jorge Ben Jor, com todos os seus hinos flamenguistas, fez um show logo após a vitória.
  • Eu e Benezão no camarote open beer desse show – bem, isso aqui era absolutamente imprevisível.

Estavam lá duas Fernandas, além da garota mais fantástica da academia, e a minha avaliadora da academia. Não que a avaliadora fosse realmente um flerte, mas eu boto na conta porque passei a ter ótimos pensamentos em relação a ela, depois que ela me mandou fazer abdominais, e se sentou nas minhas pernas para eu não mexê-las.

Tudo começou com uma das Fernandas. A minha amiga me puxou e falou: “vai lá, e lasca um beijo nela. Mulher gosta de atitude”. Assim, de memória, já ouvi essa frase sobre atitude de todas as mulheres que eu conheço. Então eu parei para pensar.

O mundo é bastante caótico. As pessoas, depois de um tempo, vão se endurecendo para sofrerem menos com a bagunça do mundo. A balada é um espaço para as pessoas abrirem mão por umas horas de suas armaduras, e quem sabe, se divertirem com alguém. Obviamente, não conseguem se livrar da dureza habitual, porque afinal a balada é também bastante bagunçada.

Pode-se afirmar que a balada, segundo a teoria da aleatoriedade, é um legítimo cassino. Uma sucessão de eventos ao bel-prazer da fortuna, jogos aleatórios. Quanto mais você apostar, mais chance terá de ganhar. A vitória também depende da qualidade da aposta. O “THE GAME - A Bíblia da Sedução”, serve, em poucas palavras, para você melhorar a qualidade da sua aposta. Aliás, há uma lacuna neste livro, um capítulo faltante sobre abordagens em shows e lugares barulhentos no Brasil. Simplesmente um brasileiro tem pouquíssimos segundos entre fazer uma apresentação genial e alcançar os lábios da garota.

Ou então, sem apresentação genial e nem nada, levantar a mão, sorrir, pegar a garota pelo braço e beijá-la como um altivo Marco Antônio (ver o seriado ROMA - HBO). Atitude, por conseguinte, é isso.

Segue disso tudo que eu, em exímia falta de atitude, perdi a primeira, e depois a segunda Fernanda. Defendo-me: não tive estômago para encarnar o general romano. Estava me divertindo bastante abrindo alas entre os flamenguistas para o Benézão desfilar seus grandes passos carnavalescos.

Encontrei a garota mais fantástica da academia sendo bombardeada por três caras ao mesmo tempo. No meio de toda aquela balburdia, ela ainda me viu, se safou dos caras, e veio trocar um oi comigo. Descobri o seu nome e larguei-a aos leões.

A avaliadora, ao me reconhecer, chegou-se aos pulos e com um sorriso de orelha a orelha. Ignorando o fato de eu compor o salário dela, até dá para achar que ela ficou feliz ao me encontrar. Mas não dava para ignorar o 1,90m de brucutu ao lado dela, vestido de camiseta rubro-negra.

Somo à situação dois eventos. Na quarta-feira discuti o relacionamento com uma ex. É simplesmente genial você discutir a respeito de algo que não existe mais. No domingo à tarde, uma pequena que só me procura quando está de partida para os Estados Unidos, recusou minha pedida de música regada a vinho, alegando ter de arrumar as malas.

Conclusão, caros senhores: neste exato momento, não há, seguramente, mulher alguma tecendo planos de ter o velho Eduzão como marido e pai de seus filhos. Talvez uma balzaquiana que eu conheci no Gates Pub. Porém, balzaquianas são por definição meio desiludidas, então podem tirá-la da lista também.

Vocês façam as contas do enorme banho de sangue que a confluência destes eventos poderia fazer à auto-estima de um homem. Não sei por que, mas imagino a auto-estima como sendo um castor tentando construir uma represa num riacho prestes a transbordar. E para a teoria da aleatoriedade, é bastante plausível considerar um degelo na montanha num dia qualquer ensolarado, e trazer a baixo a frágil parede de gravetos.

Estranhamente, por ordem do acaso, ou não, o que senti passou longe de ser um banho de sangue. Ao que posso transmitir, senti-me como um homem que acaba de pagar suas dívidas no banco, e acaba de sair pela porta da agência e se depara com o mundo lá fora. Um alívio. E daí em diante.

Quem viu aquele filme AMNÉSIA se lembra do cara cuja doença era sua mente dar reset de 10 em 10 minutos. Ele começa a se tatuar porque tem de investigar o que aconteceu com ele mesmo, e o único lugar seguro para guardar as informações é o seu próprio corpo. A filosofia do cara é mais ou menos assim: nós temos dentro de nós mesmos mil pessoas diferentes. Um líder, um idiota, um santo, um covarde. E daí em diante. Se quisermos chegar em algum lugar, devemos escolher sempre passar o bastão para a pessoa certa. Passando todos os dias o bastão para o imbecil, a vida começa a andar para trás.

Haveria opção de, no cassino-balada, sempre passar o bastão ao general Marco Antônio? Ou seria essa uma decisão ao sabor da fortuna?

Não respondo a isso. Nem Alfie, o sedutor, que divide a vida em uma dicotomia entre liberdade e paz de espírito.

Mas se acontecer de nos livrarmos de nossos antigos laços, ou eles se livrarem de nós, temos a opção de ajustar as velas para onde quisermos. Lembrar, talvez, o gosto quente da novidade. Dançar com mais graça, mais leveza. Estarmos abertos a toda e qualquer possibilidade que a maré trouxer pela manhã. Porque apesar dos eventos serem aleatórios, quanto mais estivermos certos sobre o que queremos, menos deixaremos que as coisas nos atrapalhem.

Após o show, ao chegar em casa às duas da manhã, deparo-me com o Guilherminho, jogávamos bola na 206 Norte, nas infinitas tardes da infância. Ele tentava consertar o carro, e eu pergunto o que aconteceu, se queria ajuda. Ele falou: “já acabei, é que a garrafa de guaraná 2 litros que segura o trilho do banco do passageiro se soltou. Estava indo ali comprar cigarro, porque já viu, tô comemorando o Mengão, só vou dormir daqui umas duas horas, e o cigarro acabou. Vou indo! Bom te ver com esse seu sorriso no rosto. Vamos tomar uma gelada qualquer dia!”

Lembrei das flamenguistas. E daí em diante.

E DEPOIS?

Diálogo entre Neil Strauss e seu último guru. O guru nunca se proclamou como tal. Estava agora velho, casado e feliz. Em seu tempo, voara abaixo do radar. Um verdadeiro sedutor.

- A única coisa que importa é passar a impressão que se tem confiança. Você passa metade da sua vida aprendendo a fingir que tem confiança.

- E depois que você aprende?

- Depois você morre.


Eduardo Pastore é administrador, músico e recebe conselhos filosóficos de Pec, seu cachorro.

17 julho 2009

PÁ DE CAL - episódio final - Por Manoel Cabral

Noblesse oblige. 18h53, restava a última operação do dia. Tínhamos compromisso de honra inadiável. Movimentamos todos os que podíamos para o centro de Dubai. Estacionamos. Estranho... Ladeira prá subir. Fora a rampa do Palácio, pensei que fosse tudo reto feito papo de funkeiro. Ou estaríamos no Pelourinho? Não, ensaio do Olodum de novo, não! Fitinhas de proteção no braço e fotos... só Jesus!!! Salve-nos G-ELDER! Passou. O local era distinto. Tinha 2 ambientes. Ne sutor supra crepidam, senão o couvert seria R$ 15,00! Nossa! ficamos no limite, por R$ 10,00 por cabeça.


Primeiro conflito: MARI-MARI pediu fritas. É, aquelas batatas gorduras-trans! Não serviam. Pareceu-me coisa da oposição do Senado. Como assim!!!??? Fritas é um patrimônio universal! Até o jurássico Fidel aprovou. Pensei em esvaziar a provocação e trocar de ambiente. Mas os olhos de MARI-MARI pediam apoio. Tá certo! Também quero batata frita! Misturem os pratos! E tem mais: também queremos girassóis. Oito. Podem fritar 8! Com poções de arroz. Vamos misturar com o resto da farofa! Quero ver! Tamos pagano... Não sei porque, mas percebi uma indisfarçada aprovação de EDUV-A-KA quando chegaram os discos voadores. Seria alguma ligação com a infância? Freud explica... Ou o ato solene do operário simples desafiar o capitalismo selvagem em sua própria casa? Quem poderá transitar nesse universo inatingível de EUDV-A-KA? Talvez Fe-Fei, nos melhores dias de romantismo. Ao final, percebi a humildade do nosso agente, acompanhado por DIE-OLHOS-DE-GERE na reta final: o que sobrou da farofa, misturado com o resto da picanha, arroz e o resto dos ovos fritos. Associei-me de imediato a essa ação dos nossos heróis. Tive a sensação de ter participado de um momento ecumênico marcante, de fazer inveja ao Papa nas suas homilias dominicais em Roma.


Antes desse episódio, todos estavam preocupados com a chegada de DANI-EXPLO. Tem aquele negócio das idades... Idade do macaco... Não entendi muito bem. Com que idade ele chegaria?


Mas DANI-EXPLO chegou logo, com seu penteado indefectível. Sua alegria contagiou o ambiente. Dono de vasta cultura contemporânea e de uma habilidade para a dança incomparável. Pude presenciar em "cada um no seu quadrado". Também teve o lance do fim de festa, no dia seguinte. Sou testemunha de que ele tentou coisa melhor. Mas guerreiro é guerreiro! Não perde a viagem e passa o rodo! Ele sabe tudo!


Depois de algumas cervejas, vi Fe-Fei discursar Parmênides. Ressuscitou a Grécia antiga e as múmias do Egito. Queóps, Quéfren e Miquerinos estremeceram no sarcófago! Seria a maldição do Faraó? Senti a falta de Demócrito e Leucipo. Sócrates só gostava dos jovens ainda imberbes. Hoje isso tem outro nome... E os sofistas... bem, só queriam discutir, fosse o que fosse. EL-OÁ, também depois do 2º gole, contribuiu com o repasto cultural. Será que ouvi Maquiavel? Eu estava do outro lado da mesa, no entanto cogito, ergo sun! E dá-lhe Descartes! As pálpebras pesaram nesse momento...


Percebi EDUV-A-KA meio calado. Parecia distante. Que elucubrações estariam ocupando sua mente privilegiada? Seria de qual lado jogaria o penteado na próxima missão? Manteria a quase-barba? Era uma dúvida shakesperiana... quase transcendental. Mas Fe-Fei estava atenta. Quem sabe o que aconteceria depois de encerrarmos? A noite é uma criança, feito o joÃOZINHO - dinâmica, muito dinâmica...


Oh!MAR#$!CELA conduzia bem as conversações, sob o olhar atento e silencioso de DIE-OLHOS-DE-GERE. Aliás, que capacidade de produzir informações! Marcante e incansável! Mas sem polêmicas. Juro que não percebi nada. Nada mesmo! F-PAT e G-ELDER estavam aliviados. Tudo transcorrera dentro do planejado. Sem acidentes de percurso. A única preocupação era a volta prá casa. PIT-FRED tinha comido muito petisco. Certamente o spray já estava vencido. Mas tinha resto do bolo na geladeira! Isso animava.


Não obstante, captei a preocupação de G-ELDER: qual seria a tática a ser usada com LUCAS-DI-KOLO? Deixar descarregar a bateria no chão, tipo fio-terra de chuveiro? E a polícia, que ia pensar? Espancamento de menores ... Isso pode complicar. E a mãe estava presente. E o pai anda armado ... Dúvida cruel, mas era prá amanhã. Hoje era encerrar a noite.


Cadê a música? Notei que os artistas ficaram mais tempo nas mesas da plataforma 1, do que tocando. Mas fiquei quieto para não atiçar o espírito guerreiro de EL-OÁ. Já pensou na baixaria : vamos pagar só R$ 6,99 por cabeça e queremos o troco exato, sem arredondamentos nem chicletes! Ou tragam a diferença em cerveja!


Estava na hora. MÃO-DE-OBRA e sua comitiva iam para Massassuchets no dia seguinte. EL-OA chorava só de pensar nas ausências de joÃOZINHO e LUCAS-DI-KOLO. Era preciso descansar, pois o dia fora corrido.

Despedimo-nos aqui, mas deixem seus comunicadores ligados. A qualquer momento...



Mano EL é meu sogo, está recém aposentado e agora partiu para aventuras mais perigosas - Virou professor universitário.

06 julho 2009

O DESJEJUM! parte 2, baseado em fatos reais - por Manoel Cabral


11h27. Passamos pela mansão do caminho, pois F-PAT precisava aplicar o spray de PIT-FRED no ambiente. Mais tarde teríamos que voltar pra dormir... Encontramos EL-OÁ se arrumando e perguntando se joÃOZINHO iria conosco. G-ELDER respondeu afirmativamente e mais, LUCAS-DI-KOLO também iria. Ela franziu a testa de alegria. Desjejum concorrido. Comandante MÃO-DE-OBRA, nosso supremo, estaria presente com a esposa. Nada poderia dar errado! Chegamos num recinto agradável, como convinha. Instância luxuosa, muito bem frequentada pelas mais diversas tribos. Um ambiente privado já tinha sido preparado. Fe-Fei se posicionou junto a EDUV-A-KA em localização estratégia, visualizando os convidados. Eles surgiam em duplas, quase sempre. Cardápio pronto, tipo "é isso aí mesmo!" Apareceram com uma tal de "brusqueta". Por favor, soletrem calmamente! Fiquei vendo como se comia aquilo. Tinha um disfarce vermelho. Seria uma alusão ao PT? Talvez ... Mais detidamente, debaixo da substancia vermelha vi um elemento familiar: iá ! era uma ... torrada!!!??? Isso mesmo! Uma torrada com tomate picadinho. Brusqueta??? Isso eu conheço! Bem que não vi DANI-EXPLO nem DIE-OLHOS-DE-GERE no recinto nesse momento. Eles tinham informações privilegiadas...


Preocupação geral: joÃOZINHO numa manobra espetacular driblou a segurança e se dirigiu ao bolo ... com o dedo indicador em riste! Vai acontecer! Vai acontecer! Fe-Fei, num salto triplo interceptou a intenção e salvou o bolo! Foi por pouco!


Alguém perguntou pelo som ambiente. Suei frio. Será que aquela banda, Oxiurus de Mun-ha, iria se apresentar ? Ou alguém iria sugerir uma performance de EDUV-A-KA, num flash back catársico? Hum... improvável. Ele estava em missão e não se exporia tanto. Passou. Mas, de vez em quando voltavam-me reflexões sobre o cardápio. Muito bonito. Coisa de gênio.


Não é, G-ELDER? Mas a brusqueta ...

Momento solene: Fe-Fei e EDUV-A-KA se juntaram e pediram a palavra. Iriam anunciar o próprio casamento? Percebi a preocupação nos olhos dele ... acho que ainda não estava preparado. Silêncio profundo. Então Fe-Fei tomou a iniciativa e tirou uma folha escrita com algo que não puder ler à distância. Tava dobrada. Seria uma moção em prol do movimento feminista NSCA (Não Sou Costela de Adão)? Se ainda fosse uma picanha ... Mas nada disso. Era uma viagem de presente para o Pólo Sul por alguns dias. É que rolou uma informação que agentes do Grupo Eu Odeio o Galvão (o Bueno) tinham descoberto a identidade de F-PAT e de G-ELDER. Eles corriam perigo de ser presos, pois haviam provas de que assistiram ao programa Bem Amigos. Precisavam sair de circulação por uns tempos. Ótima providência!


De repente, penetrou no ambiente uma nova trup: Fiquei intrigado pela recepção calorosa de F-PAT. Seriam antigos amigos da Bolívia, naquela missão com AZ-FARC? Ou companheiros da Aí...SEQUE! do Himalaia ? Pode ser ... A líder era uma linda mulher, que depois soube tratar-se de DAY-ZI, acompanhada por 3 homens. Pareciam perigosos e imaginei que estavam armados. Talvez fossem peritos em armas brancas... Na hora do almoço pude comprovar suas habilidades com garfo e faca. Que disposição! Lembrei-me daquela ditado tailandês: prá comer - um leão; prá trabalhar - só no empurrão!


Comida gostosa. Depois, cerveja. Vinho de U$$ 5.000, nem pensar. O verde do lugar completava a atmosfera agradável. Mas aquele moleque com o taco de golfe pedia uma providência. MÃO-DE-OBRA já estava a ponto de tomar o taco do petiz: com a mão eu acerto mais buraco do que ele! Ô menino ruim, sô!!! Deve ser bom em disputa de "cuspe à distância". Nisso CHICO-Q-TOMA interveio, sugerindo que tomassem as bolinhas dele. Quero ver jogar só com o taco!


Notei que o ambiente estava se esvaziando. Era a operação "cê já comeu, cê já bebeu, sai da minha casa pelo amor de Deus" que estava em curso. Agentes passando o rodo, limpando as mesas. Arrasta cadeira, puxa toalha, empilha cadeira. Era a máfia de Hong-Kong delimitando espaço. Na penumbra, a turma do ultimo gole resistia prá sair. A essa altura, DIE-OLHOS-DE-GERE já tinha retornado de um compromisso na Somália. Sugeriu transferir a nossa reunião para alguma instância no centro do Dubai. Limpamos as nossas digitais, recolhemos as provas, acionamos os demais agentes e fomos para operação PÁ DE CAL. Mas isso é uma outra estória ...

continua...


Mano-El é meu sogro e está recém-aposentado

(obs: o nome real dos personagens foi alterado para preservar suas identidades)

29 junho 2009

O ACORDO - Parte1, baseado em fatos reais - por Manoel Cabral


9,17hs. Dia 12. Sei não, meio viado... Mas era Junho/09. Seguíamos, caravana selecta, para desfecho de compromisso internacional no DF. A estratégia era fechar negociação de REL e PUBL, com a intervenção de F-PAT e G-EL-DER, agentes designados especialmente para essa missão. O 1º desafio era descobrir o local: difícil acesso. Muitos seguranças, imprensa internacional e senhas... muitas senhas... Tentamos o elevador no inicio. Não, não. Pode haver bombas... Decidimos gastar sapatos e subir degraus. Figuras estranhas no caminhos, com sotaques ininteligíveis. Visualizamos muitos boxes. O que estariam tramando? Gente estranha, com vestimenta estranhas... Pela intuição, chegamos a um boxe mais frequentado. Duplas com muitos asseclas. Será que AL Capone tinha mandado seus descendentes? Não sabíamos. Tive a impressão de que as negociações não iam ser fáceis. A máfia japonesa mandou representantes. Percebendo essa manobra, F-PAT retirou-se da multidão e ligou para nossa agente chinesa Fe-Fei,que estava em outra missão nos arredores, preparando uma surpresa no seu apartamento. Não tardou e Fe-Fei adentrou o recinto, linda, se desculpando de alguns arranhões na sua indumentária cor de ouro... Ela havia sido interrompida num momento de luta corporal com dissidentes do MST.


Tumulto formado, com a chegada dos termos do contrato de negociação para assinatura. Não era permitida a leitura. Os de mais idade tomaram a frente. Alegaram os direitos do Estatuto do Idoso... sei não. Acho que estavam com receio de um possível recuo de uma das partes não querer assinar. De toda a forma, houve movimentação intensa. Estávamos no corredor, observando todo e qualquer movimento suspeito. Havia rumores de explosão generalizada do edifício central e seria dento de 13 minutos!!! Nesse momento, vi Fe-Fei mobilizar toda a nossa rede de agentes em busca de nosso especialista em explosivos: EDUV-A-KA. Não foi fácil a localização. Esse agente trabalha sozinho até altas horas e não gosta de ser acompanhado, pois não é novela. Estaria em Beirute, desvendado o mistério dos dromedários dementes? Ou numa sessão de aconselhamento com o PEC? Ou, ainda, nas Índias, buscando respostas para aquela musiquinha enjoada? Era um desafio!!! Pensei em acionar a EL-OA, famosa por atuações no passado nos subúrbios de Serra Leoa, mas não. Lembrei-me que ela estava numa missão em Pindamonhangaba, no caso PÍLULAS PARA O joOÃOZINHO. Fe-Fei, com seu olhar de menina sonhadora, acabou descobrindo. Ele estava numa mansão luxuosa, perto do Lago Sul, tentando uma transmutação, num contacto imediato de 3º grau. E dizem que RAUL morreu ...


Mas o tempo urgia. Os 13 minutos se esvaíam como salário mínimo. Como torresmo em boca de velho. E nada de EDUV-A-KA chegar. O mestre de cerimonia, o EXO-RC-ISTA chegou! Frisson geral. Repentinamente, uma figura de preto, com características de lider da Convenção das bruxas, deu de ré. Deu de ré! Deu de Ré! Foi empurrando a nossa caravana para o precipício. Nesse momento, F-PAT, muito perspicaz, tirou G-EL-DER do seu estado ZEN natural, arrastou-o pela aliança reluzente e nos deslocamos com a velocidade da luz para uma outra plataforma! Fe-Fei, que também havia percebido a trama, nos acompanhou rapidamente. Pelos gases de PIT-FRED! Foi por pouco!


Fato estranho: O EXO-RC-ISTA não trazia aquela tarja roxa nos ombros. Estava com uma faixa verde-amarela, à moda Vasco da Gama 2ª divisão. O que significava aquilo? Também não vi a menina possuída. Depois soube que ela fora descarregada numa sessão da Assembleia... Seria um protesto do clero pelos Anjos e Demónios? Não fico claro pra mim.


Começaram as assinaturas. Fe-Fei conseguiu contacto com EDUV-A-KA, desta vez, detido numa blitz de bafometro!!! Meleca! Não contávamos com essa astúcia dos nossos inimigos! Golpe baixo, não!!! Novamente recorri a minha lista de agentes. Ah! Achei! Cade o telefone do DANI-EXPLO? Essa operação tem o perfil dele! Pelas habilidade automotivas de MARI-MARI, cade a minha agenda? Ficou na casa da tia EL-IANE, nas mãos criativas de joÃOZINHO!!! Descartado ...


Todas as máfias já tinham assinado o acordo. Apenas a turma do Fidel não tinha chegado, em protesto à decisão de OBAMA de só liberar celular pré-pago pra ilha de Cuba.


E pelo visto não viriam. Onde estaria EDUV-A-KA? Tudo teria sido em vão se o prédio explodisse. Toda a maquiagem de F-PAT. O lindo vestido novo, em 15 parcelas no cartão... O inédito madrugar de G-EL-DER às 8,30 hs, com as lambidas de PIT-FRED. Não, não era possível!!! Recusávamos a aceitar um final assim. Fe-Fei já se aprontava para desfiar o seu rosário de adjetivos impróprios... Pelo penteado de DANI-EXPLO!!! Chegou EDUV-A-KA., numa nuvem espessa de gas néon, cabelos levemente desajeitados, olhar de comigo-ninguém-pode, quase tão bonito como no dia dos documentos no cartório. Quase tão bonito quanto DIE-OLHOS-DE-GERE quando espancado pela Oh!MAR#§*!ELA! e fez a alegria geral! Desarmou os explosivos! Vi a expressão de desanimo na face do auxiliar de coveiro, que não teve outra atitude senão estender os livros para assinatura. Carimbado! Está consumado! Que nada. Perigos a vista. Seguiríamos de imediato para a próxima missão: O DESEJUM...


continua ...



Mano-El é meu sogro e está recém-aposentado

(obs: o nome real dos personagens foi alterado para preservar suas identidades)

23 maio 2009

Beirut, Iggy Pop e Queime Depois de Ler - Por EDUARDO PASTORE


Sente-se aqui, vou lhe contar uma história. Aconteceu com um antepassado, que morava na Capadócia e era mercador de essências de narguilé. Uma vez foi parar num bar em Beirut, para ver seu amigo El Figo. É exatamente esse tipo de bar que você está imaginando.

Não vá pensar que você é a primeira, J. Nem a última. Pegue sua senha e entre na fila das mulheres bonitas pelas quais já me apaixonei. E que só me renderam enormes perdas de inesgotáveis minutos.

Graças à J., ou ao seu descaso com minha piada sobre o cara das casas Bahia (“quer pagar quanto?”) ter morrido em uma explosão de ofertas, saí da aula mais cedo. Mandei mensagem aos amigos perguntando se havia cerveja em algum lugar. El Figo respondera:

CLARO QUE TEM, NO BEIRUT. TEM CERVEJAS E QUIBES. E EU NÃO SOU CERVEJA NEM QUIBE.

Encontrei El Figo em uma mesa com cinco caras e uma garota. “Oi pessoal!” - Gente esse aqui é o Eduardo – disse El Figo. Em seguida me perguntaram se eu tinha algum trauma de infância, pois lá nascem todos os traumas. Decidi que se não saísse logo dali, acabaria por arrumar um.

Nunca saberei se estavam tentando seduzir alguém. Mesmo assim, não entendem bulhufas sobre o tema. Juggler, o guru, ensinou que para se gerar intimidade, deve-se fazer como velhos amigos: eles conversam por meio de afirmações, não por perguntas.

Não sabendo disso, começaram a me interrogar sem o menor escrúpulo. Um deles ficava segurando meu braço o tempo todo.

- Quer dizer que você é Eduardo e ele também? - a mãe de El Figo o registrou como ‘Carlos Eduardo’.

Com essa velocidade de raciocínio, meu chapa, você deveria tentar ser procurador da NASA. Pense sobre isso com calma.

- Você é de Penápolis? Onde fica?

Perto de Plutão. Conheço um vôo charter só de ida, se tiver interesse. Você seria simplesmente genial como morador plutônico.

- Não é a cidade da Sabrina do Pânico? Como ela era antes da TV?
Toda verde e peluda.
- Você tem cara e cabelo de pegador.

Em primeiro lugar, mulheres não são coisas para se pegar, meu chapa. Se você não gosta, eu gosto e ponto final. Mulheres devem ser conquistadas. De modos que, você não entende de nada, então por favor cale a boca, e tire a mão do meu braço. Em segundo lugar, deixe meu cabelo em paz.

- E o outro Eduardo (El Figo) tem cara de desleixado, menino de Brasília.

É óbvio que El Figo é um desleixado. Dê uma sacada ao seu redor e veja bem onde ele me colocou. Esse não é ponto alto da minha década, pode ter certeza disso.

Para melhorar, um deles pergunta: “Quem está dando C.U. no departamento hoje?” A mesa vai abaixo de gargalhadas.

Mas que droga, caras. Cadê a aura de glamour? Para aonde foi a dignidade de pessoas como aquele cara do filme Milk, ao responder sobre a impossibilidade de dois homens terem filhos: “Deus é testemunha do quanto estamos tentando”. Inúmeras pessoas as quais lutaram tanto para conquistar seus direitos, o direito de apaziguar um gorila arraigado de machismo feito eu.

Descobri tarde demais que C.U. significa “Comunicação Universitária”. Bando de sacripantas. Não sabem que com essas coisas não se brinca?

- E você está solteiro?
El Figo, você vai pagar caro por isso, pode apostar. Olhei para frente, e vi o Ozzy Osbourne, um garçom famoso da cidade. Olhei para a direita, e vi o Iggy Pop, em pé, olhando fixamente para mim. Desviei rapidamente a cabeça para minha esquerda. Descobri o Robert Redford, jogando-me um olhar penetrante. Os deuses devem estar loucos. No outro lado do meu ombro está Clint Eastwood, acendendo um cigarro. Ao menos descobri que Bob Redford está paquerando é o Clint.

- Você é solteiro ou namora?
- Estou tranquilo.
- Tranquilo? – O Iggy Pop começou a morder o beiço e fazer careta. E continua olhando.
- É, o oposto de tenso.
Não é verdade. Mas não estar nos braços do Ozzy ou do Iggy Pop já significa muito para mim neste momento.

Despedi-me amigavelmente. Saí de lá com uma enorme culpa. Algo que não sabia direito explicar. Estava me sentindo um verdadeiro brucutu texano. Já antevia a enxurrada de emails: convites para participar do congresso de alguma igreja ultra-ortodoxa, ou para ser queimado em praça pública em um banquete das minorias. Mas eu não falei nada a noite inteira, e fui cortês nas respostas! Há o que se pensa e há o que se fala.

Ao deitar, lembrei-me do último filme dos irmãos Cohen, Queime Depois de Ler. Um instrutor de academia, por acaso, acha um CD com informações cujo dono é agente demitido da CIA. Dados que não serviam absolutamente para nada. O agente apenas queria escrever um livro autobiográfico.

O instrutor acha que o CD é valioso, e decide extorquir o agente. Todos os trambiqueiros do pedaço descobrem e tentam tirar vantagem. Começa a se desenrolar uma série de assassinatos. Os caras envolvem a Rússia, os chineses, a CIA e um oficial de justiça cujo objetivo é fazer uma cadeira de balanço com um dildo acoplado.

Ao final, resta uma lama só para todos os lados. Na última cena, entra um assessor da CIA no gabinete do diretor e fala:

- É, acabou tudo pelo avesso. Pelo menos aprendemos nossa lição.
O diretor termina:
- Concordo... Mas pelos céus, o que foi que nós fizemos?

*Eduardo Pastore é Administrador de Empresas, músico e recebe aconselhamentos filosóficos de Pec, seu cachorro.

16 abril 2009

Pode Entrar!

- Olha o carteirooooooo!
- Pode entrar Tonico.
- E esse cachorro?
- Tem nada não, ele é castrado.
- Oxe! Não tô com medo que ele me foda! Não quero é que me morda.

15 abril 2009

Desconto! Coma Mais, Pague Menos

Rodolfo era do tipo que gostava de desafios, não todos, é certo, mas os de pizza podiam contar com a sua presença (uma pena não haver campeonatos sérios, com rivais a sua altura. Ele certamente ganharia).

Tudo começou como uma brincadeira boba de adolescente, em uma comemoração qualquer. Sabe como se é nessa fase... Sem perceber, comeu 23 fatias, todos com borda recheada e duas coca-colas light (ajudava a descer). Depois desse dia, Rodolfo ganhou a admiração dos colegas, sentiu, finalmente, que tinha talento para algo, contrariando Estela, sua tia enfezada.

O certo é que Rodolfo tomou gosto pela coisa e seguiu carreira. Quem não gostava disso eram os donos de rodízios, que tremiam ao seu menor sinal, tentavam persuadi-lo a desistir, pagavam se fosse preciso. Tudo inútil, nenhum competidor que se preze desiste de um desafio.

Num dia qualquer, e na 28a pizza, Rodolfo caiu pra trás, duro, mortinho da silva. De lá de dentro se ouviu o brado de Jorge, o dono do restaurante:

- Amanhã tem desconto!!!

Todos comemoraram, depois voltaram, felizes, a comer.


13 abril 2009

Pensamentos Insignificantes e Nada Edificantes Sobre Viagens de Verão - Por Eduardo Pastore



Aquele cômputo, feito na viagem de volta.

Concorde com uma única verdade debaixo do Sol: o verão é um grande engodo. Simplesmente acaba rápido demais. As imagens registradas em sua memória guardam pouca relação àquelas imaginadas durante a viagem de ida.

Ainda é novembro, e você já está gastando mais minutos do que deveria no cafezinho do trabalho. Perde o seu tempo e o do colega, enchendo-lhe com sua grande imaginação sobre aquela praia em Santa Catarina, onde vai passar o ano novo. Claro, você acabou de ler, na Playboy do barbeiro, o seu destino está na lista das melhores do país. Descrito pela seguinte legenda: “A praia das maiores gatas no país”.

Nesse embalo, sua mente começa a lhe pregar uma peça. Começa a ter alucinações demais sobre as férias, e sua mente distorce tudo ao seu redor. Como se o ano inteiro só existisse para culminar em duas semanas de praia.

No final, na viagem de volta, você percebe que as férias não se pareceram com o que tinha imaginado. E de certa forma, inexplicavelmente, foi até melhor.

Mas não vá pensar que alguma daquelas belas garotas, que sempre existem nos aviões, se sentará ao seu lado. Muito menos que a sua mala será a primeira a sair na esteira do desembarque.

Areia

Se você está em Guarajuba - BA, vai perceber imediatamente que impera na praia um clima de guerra civil. Há tantas pessoas jogando frescobol ao mesmo tempo, que não faz a menor diferença em que bolinha e para quem vai se rebater.

As crianças da escola de surf se transformam em formidáveis torpedos. Quando você menos esperar, estará participando ativamente das aulas, afundando nas ondas para desviar dos pequenos diabos. E você não se matriculou.

Já em Guarda do Embaú - SC, ao final da temporada, você estará diplomado em engenharia costeira. Porque lá não inventaram a barraca de praia nem garçom. Terá de levar canga, guarda-sol, isopor abarrotado de cerveja e gelo, amendoins. Sendo otimista, em duas horas terá conseguido se instalar. Isso se não tiver de estacionar o carro. Aproveite, pois só terá mais 15 minutos antes da praia entorpecer seus sentidos.

Você e seus vinte amigos se espremerão na sombra mirrada do guarda-sol. Faz calor demais e não consegue pensar em mais nada. Toma um banho no mar gelado, que acaba de trazer um corrente polar especificamente para você.

Depois se senta com uma banda da sunga na areia e a outra na canga. Que está cheia de areia. Quando for lavar a sunga no chuveiro da casa, vai transformá-lo em um aterro marinho, já no primeiro dia.

A boa conclusão, é que praia é como uma pizzaria nova em cidade do interior. No começo, você quer ir todo dia. Na segunda semana, vai se der.

Então se lembra daquele plano de mudar de cidade.

Lembranças.

No chão do quarto, sua mala ficará tão inacessível, que você preferirá se acostumar à idéia de usar as mesmas peças de roupa. Aquela mala, que demorou mais de hora para ser arquitetada. No embarque, marcou uns gordos 23kgs.

No terceiro dia, ninguém mais fecha a mala. Dá-se início ao pior: o inevitável intercâmbio de conteúdos.

Ao chegar em casa, faça um favor a si mesmo e não desfaça a mala na frente da sua mãe, muito menos da sua namorada. Uma calcinha rosa pode pintar sem você ter culpa no cartório, e vai ser difícil explicar que não, aquilo era apenas uma lembrancinha da praia.

Até mais, e Obrigado pelos Peixes!

Os dias de chuva fazem parte do verão. São desse mundo, e esse é o nosso mundo. Acostume-se com a idéia de que terá de inventar passatempos ao lado dos amigos. Não dê corda solta à sua imaginação, ou vai se arrepender. Principalmente se está ficando bêbado mais de uma vez por dia.

É alta a chance de um desprevenido sentir atração por inventar coreografias inusitadas. Nada mais fatal. O universo é regido por leis estranhas e que escapam à nossa compreensão.

Se alguém for jantar no restaurante no fim do universo, vai descobrir que há intrincada relação entre danças estúpidas e eventos climáticos. São conexões estabelecidas em algum tipo de programa sideral de auditório. Daqueles que a pessoa fica trancada em uma cabine dizendo “SIM!” ou “NÃO!”, escolhendo se quer trocar um prêmio pelo outro, sem saber qual é o outro.

Não desconfiando dessa poderosa gravidade cósmica, você pode se pegar sem fazer nada, enquanto aguarda suas amigas prepararem a macarronada do jantar. Para auxiliar no cozimento, você pode decidir fazer uma coreografia. Tal como os índios realizam a dança da chuva para inaugurar a sua colheita.

Se você não é Douglas Adams ou um coreógrafo com especialização em meteorologia, não saberá se sua dança invoca cozimento de espaguete, erupção de vulcões ou um tsunami no Mar Morto.

E enquanto estiver dançando, o universo te perguntará:
- Você quer trocar, você quer trocar... Um prato de macarrão, por dois dias de ciclone tropical?

E você dentro da cabine, sem escutar nada. A platéia grita efusivamente “NÃOOOOOO!”

E você acabará se entregando, para a glória do apresentador do programa:

-“SIMMMMM!”

A Bíblia dos Desgostos

As pessoas não gostam das mesmas coisas. “E ainda bem que não, imagine como seria o mundo?”, se adiantaria algum correto politicamente. Com toda certeza esse alguém não é El Figo. El Figo detesta boa parte dos gostos que correm entre o populacho.

Não tente contra argumentar, porque você vai perder. Em vez disso, poderá experimentar uma boa dose de filosofia cotidiana ao concordar com aquele ponto de vista do avesso.

Estimule-o a clarear sua visão turva e inebriada pelos gostos usuais. Pergunte de seu raciocínio matemático para embasar seu desgosto por lasanha. E enfim, você vai descobrir que todas as outras pessoas é que estão erradas mesmo, e coitadas, não sabem que não se deve comer carne com queijo. Em hipótese alguma.

El Figo descobriu que não gostava de praia após 13 dias de férias.
El Figo não gosta de qualquer coisa à milanesa. Nem bebe cerveja Bohemia.
Não pretende ter um barco quando ficar velho.
El figo não come biscoito doce se tiver triscado num farelo de bolacha salgada.
A única certeza é que El Figo gosta de picolés. Come até cinco ao dia.

Para evitar que outros lhe lasquem um pedaço de picolé, El Figo compra dois de uma vez.

Se você quiser estreitar uma relação nada edificante com El Figo, faça o seguinte. Fale que ele come picolé demais, e que nunca viu alguém comer tantos picolés. Depois de uns minutos peça uma mordida. Não aceite o picolé sobressalente, que ele guarda a tiracolo.

E enfim, prepare-se para o desfecho: “Ah, agora quer meu picolé... mas você sabe... você sabe o que você tem mais que eu?”.

As-salaam-aleykum

Em uma transgressão abusiva, essa milenar expressão árabe se encolheu para Salamaleiko - uma saudação de sovacos, em portunhol selvagem.

Quando você completa um quarto de século, começa a se predispor a coisas estranhas. Uma delas é fazer essa saudação no meio da rua. Outra, é acreditar em seu amigo falando que raspar o sovaco é uma coisa boa. A conclusão lógica disso é que você vai arrasar nas areias, mostrando seu salamaleiko depilado.

Se você é mulher, já descobriu que após raspar o salamaleiko, não se deve passar loção pós-barba. Se você é homem, faz a barba. E conclui logicamente o contrário.


Experiências Filosóficas de Verão

• Cumprimente as pessoas com despedidas e despeça-se com saudações.
• Escove os dentes antes das refeições.
• Tente ficar bêbado mais de uma vez por dia.
• Ande na praia com o guarda-sol armado, contra o vento.
• Se puder, vá com a companhia aérea das linhas inteligentes, e volte com a do tapete vermelho. Compare a aterrissagem das duas. No caso da primeira, você imediatamente se lembrará de um filme que o piloto vira geléia ao pousar em outro planeta. Se prestar atenção, dá até para ouvir a comissária falando: “Sres. Passageiros, apertem os cintos, o piloto sumiu.”
• Compartilhe os resultados das baladas com os amigos. Essa é a melhor parte.
• Enquanto aguarda no embarque, ao fazer escala em outra cidade, ligue para seus colegas e fale que está indo à praia. Deseje feliz ano-novo. Ao voltar, traga presentes para eles.
• Quando o avião estiver prestes a estacionar, faça uma contagem regressiva mental, e veja os passageiros se ejetarem de suas poltronas, todos juntos.
• Se conseguir chegar antes das malas começarem a correr na esteira de desembarque, não se iluda. A sua não será a primeira.

08 abril 2009

Quarto 203 - Episódio II


Estava noiva há seis meses. Quem diria que em tão pouco tempo minha vida fosse mudar tão rápido... Antes Clarissa, hoje, Cléo. A verdade é que nesses lugares ninguém se preocupa com nomes. Poucos se lembram de perguntar e os que o fazem agem querendo sexo, mas antes disso já nos chamam por nomes de antigos desgostos.

O novo nome, além de uma exigência da profissão, serve como fuga daquela vida correta, no papel de filha comportada e futura esposa dedicada. Aquela não era minha vida, e ficava aterrorizada com essa perspectiva. Mas vai dizer isso para o corno que me pegou com outro a vinte dias do casamento. Por Deus como um milagre desviou aquela bala. Fugi sem nada, vida nova, mas até hoje tenho medo de encontrá-lo por aqui.

Não queria que me visse num lugar desses, isso é um meio, não um fim. Ainda tenho meus sonhos, um futuro com roupas limpas, lençóis cheirosos e vida diurna. É assim que, todos os dias, e em cada forasteiro que encontro, vejo uma forma de sair desse buraco e começar, pela terceira vez e longe dessa cidade, uma vida nova.

E lá estava ele. Não parecia muito confortável, um bom sinal para quem, apesar da situação, procurava homens distintos. Um olhar desviado, jeito envergonhado e ombros de submissão, não mais que isso para conquistar qualquer um, como são tolos.

Sem muitas palavras, fomos direto ao seu hotel. Mantenho minha pose de menina recatada e evito o falatório. Isso ajuda a criar um clima de romance - muitos fantasiam estar passeando com suas senhoras - além disso, perguntas nessas horas só atrapalham.

Ao entrar, me pediu desculpas pela bagunça. Achei engraçado aquilo. Qual homem se importa com isso? Ele não reparou no lugar onde estávamos antes? Mas mostrou um pouco de preocupação, enfim, e isso é bom. Amenizou aquela situação de desconforto inicial.

A pegada não foi lá grande coisa, mas nada que não se aprenda com o tempo. E que mania eles têm de apagar segundos depois. Não que eu quisesse juras de amor, dormir abraçados... não no primeiro encontro, mas acho isso uma falta de educação. E a que horas sairei? Ele completará o pagamento por toda a noite? Detalhes técnicos me preocupam, ainda tenho o resto da noite para faturar.

- Quem está aí? Perguntei baixinho assim que ouvi a porta abrir. A lembrança do corno me veio à mente, gelando minha alma. Seria possível me encontrar aqui?

Estava escuro, mas sentia que alguém se aproximara. Passos calculados e imperceptíveis. Levanto de súbito e tento sair... Algo atingiu minha garganta e o escuro do quarto ficou ainda mais negro. Não sentia dor, também não tinha mais medo.

Continua...

02 abril 2009

Quarto 203 - Episódio I


Mais uma noite de sábado gasta com bebidas, gente desinteressante e fedida. O Delírio’s Bar era a única opção da cidade, mas tinha suas qualidades. A crítica inicial se deve ao meu estado de espírito. Hoje não estou num dia bom e nessas situações não vemos mais que um bando de dementes, drogados e mal cheirosos, incluindo as mulheres que fedem ora pelo suor da dança e dos vícios, ora por suas loções exageradas.

Enfim, era um bom lugar para gente como nós.

3h30 da manhã, não aguentava mais e resolvi sair. Há dias em que devemos saber quando nos recolher e não esperar que o sol da manhã revele o que nos tornamos. Pela saída já dava pra ver o resultado de toda aquela mistura: muito vômito, garrafas jogadas, mulheres descabeladas e com os olhos sujos de maquiagem derretida. Lastimável...

Mas não era tudo. De relance, percebi que uma galega me olhava. Frequentando esses lugares você fica habilidoso em certas artes, e essa era uma que eu dominava. Enfim, ao menos a noite não estava de toda perdida.

Fomos caminhando até o hotel onde estava hospedado. Não, não pertencia a essa cidade. Estava de passagem. Em dois dias estaria trabalhando em um lugar perto daqui, em outro desses ofícios degradantes.

Quarto 203! Chegamos. Abri a porta, tirei o chapéu e pedi que não reparasse na bagunça - essas coisas que dizemos sempre pra anteciparmos a crítica, ou avançarmos na intimidade, ela não era de conversar muito. Mas não se importou, talvez achasse o lugar até melhor do que outros que já frequentara.

Calor, como era quente aquele lugar! Ainda mais na cama, pele sobre pele, quarto fechado. Estava como gostava. Nessas horas não sabia mais distinguir meu suor do dela, os dois, enfim, numa fedentina só.

6h10 da manhã. Abro os olhos devagar, estava relaxado. Lembrei que há dias não dormia tão bem. Percebo então que a cama estava molhada, mas não podia ser suor, era viscoso. Levanto de um pulo só.

- Puta merda! Mas que diabos!

No chão também havia manchas. Resolvi segui-las, mesmo que ainda nu, sujo de sangue e com perguntas a me torturar: como não ouvi nada? Havia um corpo? Qual o nome dela? pergunta que só me veio agora.

Lá fora, a cidade acordada. Não a reconhecia, havia muita cor. Meus olhos se encheram de lágrimas devido à claridade. Ao longe, ouço uma voz gritar e aquilo apertou meu peito: - Assassino!

Continua...

07 março 2009

Conto de Natal - por Eduardo Pastore


Na quarta-feira à noite, quando voltava de Penápolis, pude fazer uma das viagens mais hostis de minha vida. Para começar, fiquei esperando 2h30 o ônibus no meio da estrada, em um posto de gasolina semi abandonado, com a incerteza de que o ônibus pararia para me apanhar. Ao chegar finalmente, o motorista fez aquela cara no melhor estilo pague para entrar e reze para sair.

Descubro, o veículo saiu de Maringá - PN, e o bagageiro estava lotado de muamba. Ônibus, portanto, de sacoleiro. Minha mala teve de ir na cabina do motorista até Rio Preto. Em meu acento, residia uma senhora com seu filho no colo. Se há uma coisa que não gosto, é disso. Chegar e encontrar minha poltrona ocupada. Daí você tem de se deslocar para o acento de outro. E o outro invariavelmente vai chegar e falar, ‘essa poltrona é minha’.

Seja ônibus, show ou teatro, essa dinâmica mostra o quanto o ser humano se parece mais com uma ameba do que com um chimpanzé. Essa é a filosofia de vida daquele pirata, o lobo do mar, de Jack London. As amebas maiores engolem as outras. E eu estava começando a ser engolido por aquele ônibus.

A mulher da minha poltrona indaga-me se posso sentar em outro lugar. Pensei: “Não, minha senhora. Se eu quisesse viajar em outra poltrona, não teria comprado a que você está sentada, há uma semana atrás”. Achei sensato ficar em paz com a população local, que a essa altura estava toda de olho em mim, em busca de um entretenimento barato. Procuro o único acento vago.

Nada contra meu vizinho, a princípio. A não ser que ele estava nitidamente exalando odores injustificáveis. E estava completamente esparramado pela poltrona, corpulento, invadindo o espaço meu de direito. Sentei, e tentei desapegar de tudo ao meu redor. Liguei meu Ipod da China, e fiquei brincando de construir tubulação hídrica no celular.

O cara ao lado, vendo que eu estava muito a fim de bater papo, perguntou: “Você também vai para Brasília?” Nesse momento, desapareceu toda a minha esperança dele saltar em alguma parada antes. Se naquela noite, o cidadão já cheirava hostilidades, a manhã seguinte seria uma epopéia de odores. O império dos sentidos, ao avesso.

Não obstante sua aversão a banho e desodorantes, contava com um truque na manga. Nas paradas ele trazia uns pastéis de carne, pães de queijo frios, e coca -colas quentes. Fazia questão de comer e beber lá dentro.

Outra que eu não esperava, ele insistia em invadir meu espaço aéreo. Roçava seu braço e sua perna em mim. Chegou ao cúmulo de colocar o seu pé grande no meu descanso de pernas. Um despautério. Para não falar da eterna disputa de quem vai ficar com o apoio do braço, que coisa insana.

Ele sempre ganhava, simplesmente porque não se importava em ficar com o braço encostado no meu. Ao começar a disputa, eu jogava a toalha, e exprimia meu ombro. A solução foi posicionar a poltrona menos inclinada que a dele. Definitivamente é ruim para dormir. Àquela altura do campeonato, foi o melhor a ser feito.

Em Rio Preto, houve troca de motoristas, e essa foi a parte boa da viagem. Antes de dar partida, o novo motorista, um parrudo piloto em seu uniforme engomado, veio contar o número de pessoas a bordo. Estacou-se à frente do corredor, e disparou um improvável discurso.

"Boa noite senhores passageiros, meu nome é Carvalho, codinome Tomé. Serei seu motorista até a cidade de Catalão, aonde chegaremos em cerca de 5horas e 35minutos. É aconselhável que utilizem o sinto de segurança, disposto em todas as poltronas. Segundo a legislação, é proibido fumar dentro do ônibus, inclusive no sanitário. Esse veículo possui cinco saídas de emergência, duas laterais e três no teto. Por favor, leiam atentamente as instruções sobre a saída de emergência. O ar-condicionado oscilará entre 22 ºC e 25 ºC. Tentarei, na medida do possível, desviar dos buracos, que os senhores sabem, existem nas estradas. O veículo deve sacolejar um pouco. Desejo-lhes uma boa viagem, e que sempre, Deus esteja conosco".

Os muambeiros e eu estávamos todos boquiabertos. A oratória foi impecável. Nem a tenente Uhura, do Star Trek, fez algo assim pela tripulação da Enterprise. Foi uma verdadeira ode ao viajante. Quando ele fecha a porta, um grupo entusiasmado de baianos lá atrás, grita: DÁ-LHE TOMÉ! E o meu maltrapilho grupo de sacoleiros vai às gargalhadas.

E essa foi a única alegria. Dali em diante, todos começaram a usar indiscriminadamente o banheiro. Havia um letreiro digital na frente do corredor, apontando as horas. Se alguém adentrava o sanitário, surgia em letras vermelhas e garrafais ‘WC OCUPADO’. Quando um sujeito daqueles levantava, eu rezava que fosse só pegar água. Da 0:00, até chegar em Brasília às 10:00, contei sete vezes ‘WC OCUPADO’. Um luxo para poucos.

Finalmente o veículo adentrou o Distrito Federal. Àquela hora já havia descoberto que meu vizinho tinha trava na língua e a voz fina. Atirou-se a fazer uma série de perguntas retóricas, sem o menor pudor ao meu resguardo matinal. ‘Como está o trânsito? O negócio tá ruim, hein? Foi uma batida, você viu’? Intercalava as perguntas com umas bocejadas horrendas, pois em nenhum momento desceu para escovar os dentes. Coisa que eu fiz duas vezes na viagem.

Como um Sherlock Holmes do pântano, inquiriu-me a grande pergunta final: ‘Você também vai descer na rodoviária’?

O que os profetas bíblicos ensinam é que, idéias ruins, assim como pulgas, pulam nas cabeças de toda a gente. Aos bons, cabe o dever de não lhes fazer ninho. Apenas pensar uma resposta, portanto, não deve fazer tanto barulho às leis do universo.

Em um exercício de fúria, imaginei-me como o intrépido capitão Haddock, parceiro de Tintim. "Com mil milhões de macacos! Eu vou, seu sacripanta, porque simplesmente não há outro lugar para descer daqui até essa maldita rodoviária, Mussolini de carnaval. Mas você, coruja mal empalhada, pegue sua mala e os seus pastéis, pois você vai voar pela janela é agora, astronauta de água doce!".

Cheguei em Brasília, com um saldo de sono de apenas quatro horas, durante uma viagem de catorze. Algo conseguido com muito custo, à base de Dramin- B.

Lembrei de Alatriste, espadachim espanhol do século XVI. Quando jazia ao chão, à beira da morte, completamente ensanguentado, trespassado pelos cortes da espada de seu duelista, falou simplesmente: VIDA DE MERDA.

Eduardo Pastore, o Vaca, é músico, administrador de empresas, e recebe aconselhamento filosófico de Pec, seu cachorro.

01 março 2009

Rufos dentes de titânio


Alguns gostam de passear, outros de lamber, há ainda aqueles que vivem para dormir. Mas Rufus gosta mesmo é de morder. E como gosta... Os móveis, o sapato preferido, as contas do mês que, por descuido, ficaram a seu alcance. Tudo, enfim, era motivo e o motivava, como uma compulsão.

Era assim desde filhote e será difícil imaginá-lo sem o fazer. Mesmo depois daquele dia, no qual perdera todos os dentes de uma só vez ao tentar segurar o pneu de um carro com sua arcada dentária. Esta seguiu com o veículo e ele... bem, ficou se lamentando, sentindo uma dor f&*$@*&%.

Por sorte, seu dono era um dentista renomado, e Rufos conseguira dentes novinhos feitos de puro titânio, revestidos com aço inoxidável e raízes de platina importada, sem mistura. Era visível sua alegria. Estava doido para inaugurá-los.

28 fevereiro 2009

Crônica proibida – Como a explosão de um bicarbonato de sódio mudou meu dia - por Eduardo Pastore

“Você simplesmente nos negou o direito de sermos felizes”. Comecei o dia pensando em como escreveria uma carta endereçada à minha ex-namorada daqui a 50 anos. “Estive ao lado de tantas mulheres, e a nenhuma me acostumei. Sinto-me vazio. Meu coração não está apaziguado. Pude ver tantos casais se formarem. Nenhum experimentou o que tivemos. E eu não entendo: o que você esperava? Quem você esperava? Não sou tão evoluído. Sinto vontade de rasgar o cara que está ao seu lado”.

Curtia esse pensamento tenebroso ao som de Hallelujah, versão de Jeff Buckley. Pincei imagens dele no Google. Nunca vi um cantor tão triste, em todas as fotos. Leonard Cohen tem uma mente brilhante, mas Jeff teve uma alma brilhante. Essa frase estava escrita no Youtube. E tive de concordar.

À minha frente, um caminhão de livros para estudar. Matérias a cumprir. Revisões, resumos. Fiz milepoints para cada uma. Prova em uma semana. O ano se abrindo. E eu estava paralisado.

Precisava fazer algo a respeito. Algo que me agitasse. Experimentei andar na chuva com calma. Da primeira vez funciona. Quando você tenta sair e voltar, acaba a graça. Volta o frio, a camisa ensopada. Não funcionou. Vontade de fazer versões para Hallelujah o dia todo.

Depois de ouvir a versão de Buckley, você se dá conta que não conseguirá fazer uma melhor, porque ele fez a melhor versão para voz e guitarra. Com o mínimo, ele foi sublime.

Demoro um pouco mais do que o necessário em um acorde, desafino. A conclusão é que não basta estar triste se você não é Jeff Buckley.

Volto à lei. Nada passa, nem atormentando-me com frases de efeito moral. Estou martelando um prego em meu caixão.

Decido matar a fome, mesmo sem fome. Abro o armário de comidas do escritório. Então eu vi. Parecia que houvera uma nevasca no armário. No começo, achei que era açúcar, e pensei que seria devorado por baratas. Depois vi o pote de Eno aberto e caído. Espalhada a maior quantidade de bicarbonato de sódio que eu já vi. Não era simplesmente um pote derramado. Havia sal de fruta para todos os lados. No teto e nas paredes do armário. Pensei em como Dexter, aquele psicopata do seriado, visualizaria o esguicho de sangue de uma vítima.

A princípio, não quis limpar, ia deixar para a faxineira, que viria quem sabe quando. Abri resoluto o pote de biscoitos de maçã, banana e canela. Estavam mais gostosos do que normalmente. Decidi limpar e jogar fora tudo aquilo. Joguei fora coisas que venceram em abril de 2006. Joguei água nas coisas salpicadas pelo Eno. E todas elas começaram a assoviar a canção de sal de fruta molhado.

Sentia uma alegria simples limpando aquilo tudo e comendo biscoitos. Eis que surge um coro gospel de negras enormes de New Orleans cantando Hallelujah. Batiam palmas e cantavam com aqueles sorrisos de lua. Um bumbo marcava a pausa no refrão.

Aquela versão seria aceita para qualquer fim de filme enaltecedor. Esplendorosa.

Voltei à lei e a acabei. Terei de revisá-la, porque o coral gospel não sai da minha cabeça. Mas bati um milepoint.

Para melhorar o dia, Zé Atkins fez uma conexão para nos levar ao show de uma banda argentina que toca tango & punk.

E enquanto aguardo e escrevo, tive um grande pensamento:

Caras, não se masturbem demais. Ontem fui a um encontro com uma ótima pequena, e estava salivando para aplicar todos os procedimentos de um pick-up artist. Perguntaria se ela acreditava em mágica, e leria sua mão. Depois diria maluquices sobre sua infância. Se errasse, falaria que estava mentindo para mim. E faria o grande teste para provar que você pode fazer uma pessoa falar a verdade com cinco perguntas. Garotas gostam tanto de jogos psicológicos quanto viciados gostam de drogas. E quem sabe descolaria um beijo ou outro encontro.

Mas não, acabei indo desarmado. É como se sua energia vital se perdesse. Você pára de exalar sensualidade, seus feromônios.

Vamos lá caras, nós não somos feitos para engravidar papéis higiênicos. Isso é o que temos, é a nossa essência, é o milagre da vida. E a vida pode ser divertida se você descolar algumas (ou melhor ainda, várias) pequenas por aí. A vida, a vida é mulher do lado e seja o que Deus quiser.

E como experiência, guarde o sal de fruta no armário por um tempo suficiente. Um dia ele explodirá. Não me pergunte como.

Eduardo Pastore, o Vaca, é músico, administrador de empresas, e recebe aconselhamento filosófico de Pec, seu cachorro.

Abaixo, por Daniel Rocha, comentário sobre o texto:

O texto, de fato, me entreteu bastante. No último período do penúltimo parágrafo faltou o artigo "a" precedendo o substantivo "mulher". Não acho q vc deveria esperar chegar aos 76 anos para escrever uma carta para sua ex-namorada. Se bem q o viagra de hj já proporciona grandes momentos, imagine a pílula azul do futuro. Mas seria mais prático mandar um scraap pelo orkut.
Mas vc realmente precisou de uma epifania catalisada por sais de frutas para chegar a conclusão q o bom da vida saõ as minas?! Vc precisa conversar com nosso amigo Mirradjones, portador de uma imensa sabedoria popular, e suas mulheres ainda mais imensas e menos populares!

22 fevereiro 2009

SOBRE VIAJAR por Eduardo Pastore

“Um belo rosto que passou é como o encanto de um novo país que se nos foi revelado por um livro. Lemos seu nome, o trem vai partir. Que importa se não partimos, sabemos que existe, temos uma razão a mais para viver”. Proust.


Barbearia




Não se intimide e nem pense duas vezes. A primeira coisa imprescindível para a viagem é ir ao barbeiro um dia antes da partida. Marque horário, sente-se naquela cadeira giratória, e deixe o barbeiro colocar aquela camisa de força em você – se tem cachorro em sua casa, vai entender como ele se sente quando você coloca o pulôver de frio nele.

Passe os olhos na Playboy do mês, que apesar de ter saído há uma semana, já está totalmente amassada. Se o assistente do barbeiro, aquele que você nunca teve coragem de cortar o cabelo, sair do banheiro com a revista na mão, procure a Sexy. Ela está com boas reportagens também, como lançamentos das motos do ano, loções pós-barba, e aquelas fotos com celebridades desprevenidas. Essa é a parte mais bacana, e desconfio que não sou o único a achar isso.

Se o preço do corte for R$ 14,00, desde 1998, de bom grado dê R$ 15,00 e deseje bom Natal.

O imponderável cálculo das cuecas



Abra a gaveta das cuecas. Tire as meias que deveriam estar na gaveta das meias. Quantas cuecas levar? A partir daqui a ciência se mistura com o místico.

Sugiro o seguinte cálculo:

São quantos dias na viagem? Multiplique por dois, pois você tem que contar as cuecas que usará na balada. Some duas, pois há o dia da ida e o da volta. Subtraia três, porque algumas cuecas das baladas poderão ser usadas no dia seguinte, sem ninguém saber disso. Some duas sungas se o destino é a praia (não tente levar apenas uma). Se você sabe lavar as cuecas no banho, que nem o seu avô fazia, subtraia uma. Não mais que isso, porque você vai entender que usar cueca sem amaciante não é tão bom. Se o resultado não deu 8 ou 11, você errou a conta. Refaça o cálculo.

Mala ou mochila

Mala é coisa de velho. Compre um mochilão backpacker, daqueles de R$ 290 paus. É muito mais romântico. Você dará a impressão que vai passar três meses no sudeste asiático.

Abra o manual e leia atentamente as instruções, duas vezes. Quantos litros cabem, como colocar todas aqueles prendedores, como regular as amarras e equilibrar o peso, quais os compartimentos secretos e se ele é impermeável a chuvas e furações.

Daí faça a sua primeira viagem. E você vai descobrir a razão dos seus pais usarem mala. Você vai perceber que até o calção de banho ficou amarrotado, e você não trouxe ferro para passar roupa, porque isso não estava escrito no manual.

Canivete suíço



Sempre, aconteça o que acontecer, leve seu canivete suíço. As coisas que você poderá fazer com ele são tantas quanto as ferramentas dele. Mesmo que você só consiga puxar a tesourinha, que está estragada porque você tentou cortar a unha do dedão do pé, que nem cutelo consegue cortar. E há o saca-rolha. Depois de você enfiá-lo todo na rolha, e definitivamente não conseguir puxá-la, poderá usar o seu canivete como alça do vinho. Beber não vai dar, mas terá a vantagem de ter uma garrafa com alça para levar onde quiser.

Camiseta branca

A camiseta branca, básica, deverá ser usada no dia da viagem. Seja de avião, ônibus ou carro, usar a camiseta básica é com absoluta certeza a melhor opção. Quando estiver com mais 30 anos, poderá inclusive usá-la para dentro da calça, ou tanto melhor, da bermuda, e ninguém poderá lhe encher por causa disso. Ponto.

Sacolinha de sanduíches

Depois que você cresceu, você passou a brigar com seus irmãos para ir no banco da frente. Só então descobriu que sua mãe levava nos pés aquela sacola gigante, cheia de maçãs, guardanapos, sanduíches de presunto, bolachas cream cracker piraquê e papel higiênico. A sacola poderia ser jogada de pára-quedas por um avião da ONU e abastecer algum país da África. A sacola é tão grande que você não sabe se enfia o pé na janela, na maçã ou no papel higiênico. A conclusão é que ir atrás é melhor mesmo.

Mas a sacolinha de sanduíches se apequena perto da Caixa de Pandora. A Caixa de Pandora é invenção do Seu Tonico, pai do Elder. São precisos dois homens para carregá-la. A Caixa serve para transportar todo o cardápio da fazenda. Do bom e do melhor. É um verdadeiro estoque de alimentos para você não precisar mudar a sua dieta durante a viagem. Inclui 2 quilos de queijo de cabra, um tacho de goiabada, doce de leite, uns dois tipos de aves, uma galinha caipira moqueada (Parêntese: quando a galinha moqueada saiu da Caixa, lembrei-me no ato do bugio moqueado do Monteiro Lobato. Só então percebi que para moquear uma pessoa, o cara tem que ser realmente malvado.) e por fim, um tapete de costela de cabrito. Um tapete que poderia forrar qualquer chão de sala. Dobrado.

Se você não é do sertão baiano, não tente levar uma Caixa de Pandora. Muito menos abri-la.

Pão de queijo



Uma das coisas mais estimulantes é comer durante o trajeto. Ainda mais se você já conhece os postos de gasolina. Tanto quanto estimulante, todavia, é uma atividade arriscada. Os botecos de rodovia não se escusam a oferecer uma perigosa maionese ou aquela indescritível coxinha (não digo aquele salgado empanado; refiro-me à parte do frango, com cara de submarino, normalmente submersa em três dedos de óleo do tempo do Getúlio Vargas).

Um alimento que não faltará nas estufas de salgado é o pão de queijo. Você terá a chance de fazer um ranking dos melhores daquela estrada. Um verdadeiro tour de France do pão de queijo.

São duas as vantagens dessa nobre invenção mineira:

1) É relativamente seguro. Mais relativamente que um pastel de carne. Faça um favor a si mesmo e não coma pastel durante a viagem. Assim não ficará regurgitando e assoprando na nuca do motorista. Se você quer comer pastel, faça o seguinte: quando chegar à cidade de destino, vá numa manhã de sábado até a feira de verduras. Dê uma boa sacaca nas alfaces, coentros e cebolinhas das barracas dos japoneses. Pegue um pedaço de melancia, do cara que usa brilhantina no topete. Roube umas uvas rubi e cuspa o caroço no chão, que nem todo mundo. Entre na fila da pastelaria que é dentro de uma Kombi, e peça um de queijo e encha de molho de pimenta. E claro, para acompanhar, garapa gelada com um pouco de limão. Feita com o motor da Kombi.

2) Você não precisará comer Elma chips, e ficar cheirando a queijo roto.

Aeroporto

Pense bem. Aeroporto é o local mais legal da cidade. Já fica excitante quando você vê de longe os aviões pousando. No ar, um constante cheiro de querosene. Aeromoças maquiadas e pilotos com óculos Raiban e roupas bacanas, desembarcando para pernoitar na cidade, andando com malinhas iguais. Nada como entrar na livraria e folhear mil livros, sentir seus cheiros e ler suas orelhas. Pedir um expresso com açúcar mascavo. Se você estiver em Curitiba, verá que na lanchonete os pratos têm nome de aviões. Simplesmente genial chamar um bife com fritas de Jumbo.

Todas aquelas pessoas que estão juntas naquele mesmo local, em duas horas estarão em cidades há milhares de quilômetros. Outra temperatura, outra luz solar, outros sons, outra língua Sem falar quando ocorre a maluquice de mudar de horário. Pegar um táxi e ver a confusão na rua se desenrolando.

Algumas coisas

Compre aspirinas. Você vai precisar, acredite.
Bote na mala um livro do Jack Kerouac.
Escute no começo da viagem o álbum Howl, do Black Rebel Motorcycle Club, especialmente se estiver nublado.
Vá ao cinema na outra cidade. Se puder, vá ou volte andando.
Converse com o taxista sobre o tráfego local.
Ligue para seus pais assim que chegar, não deixe para o outro dia.
Procure um bom restaurante italiano, e peça um filé a parmegiana, com coca-cola e gelo.
Passe em uma banca e leve a última edição da revista MAD.
Chegue no quarto do hotel, e só de cuecas vá até a varanda, e fique olhando o movimento na rua.
Tome banho às 17:30. Faça a barba com cuidado e passe loção. Penteie o cabelo e saia para dar uma volta. Às 18:30, compre uma cerveja e fique olhando o movimento na rua.
Não corte o cabelo em outra cidade. Essa é uma das razões para você ir ao barbeiro um dia antes da partida.
Entre em um cyber-cafe e mande um e-mail aos amigos.
Não ligue a televisão.
Leve uma goiabada cascão aos seus anfitriões.
Já falei para usar camiseta branca na ida? É muito melhor. Ponto.

Eduardo Pastore é músico e recebe aconselhamento filosófico de Pec, seu cachorro.

20 fevereiro 2009

Sozinho



Não tinha como explicar, descrever, desenhar o que sentia naquele momento. Era um medo que vinha da espinha, passava pelas costelas, apertava o coração e congelava a alma. Cada respiração feita, cada gota de suor escorrendo pela testa como a gelar a pele, os ouvidos atentos, era como estar mais acordado do que nunca estivera. 

Fora parar atrás da poltrona de um pulo só, não sabia bem por qual lado, talvez por cima dela, não importa agora. O importante era o que vira, e tinha certeza do que seus olhos enxergaram: havia alguém na casa.

Seus pais estavam longe, em algum evento na cidade, e o telefone a distantes dois cômodos dali. Pensou em gritar. Não! Talvez não o tenha visto. Seria melhor sair devagar, sem fazer barulho. E assim o fez.

Agachado, atravessou todo o corredor por onde alcançaria a porta dos fundos. Estava mais confiante, conseguira controlar seu medo que, agora, o ajuda na difícil tarefa de tornar-se imperceptível, já que com aquele piso antigo, todo movimento era sentido.

Foi assim até chegar à porta e alcançar a fechadura. Faltava pouco agora, era só abrir devagar e... 

18 fevereiro 2009

Era só chover


Sua alegria contrastava com a da vítima, momentos antes do ataque. Qual motivo teria para tamanha brutalidade? Ninguém sabia dizer, mesmo porque ninguém suspeitava dela. Não acreditariam que de mãos tão fracas e enrugadas e ossos tão velhos e quebradiços sairia alguma força para matar quem quer que fosse.

Mas ela fazia, e o fazia sem ressentimentos. Esperava a noite cair, vestia-se sem pressa e com a cerimônia pomposa que lhe lembrava os tempos bons de passeios na praça e cinema antes das dez. Punha-se, então, a andar pela cidade escura. Estava ali para aquilo, agora, era só chover.

A umidade, de certa forma, não a impedia. Não era uma questão definida, encerrada, cuja obrigatoriedade de uma levasse à outra. Mas assim preferia. Gostava do cheiro da terra molhada, do final de tarde com céu escuro e nublado, da noite iluminada por raios. Havia uma diferença no ar, um clima de suspeição que impunha medo às pessoas e as obrigava à reclusão. Era aí que ela agia.

Mas não atacava qualquer um. Era criteriosa. Gostava principalmente das conhecidas, amigas de longos papos que, de alguma forma, a contrariavam. Ficava furiosa, mas sabia esperar. Planejava todos os passos e as crueldades que faria, dependendo do quão brava a vítima a deixava.

E eram assim esses dias. Não levantava suspeita. Já se acostumara a fazer-se surpresa toda vez que alguém lhe anunciava o terrível acontecimento. Vestia-se de preto, colocava seu melhor sapato e ia à casa da vítima prestar condolências à família. Claro, não esquecia do guarda-chuva, pois, com esse clima doido, ninguém sabe quando pode chover.