23 maio 2009

Beirut, Iggy Pop e Queime Depois de Ler - Por EDUARDO PASTORE


Sente-se aqui, vou lhe contar uma história. Aconteceu com um antepassado, que morava na Capadócia e era mercador de essências de narguilé. Uma vez foi parar num bar em Beirut, para ver seu amigo El Figo. É exatamente esse tipo de bar que você está imaginando.

Não vá pensar que você é a primeira, J. Nem a última. Pegue sua senha e entre na fila das mulheres bonitas pelas quais já me apaixonei. E que só me renderam enormes perdas de inesgotáveis minutos.

Graças à J., ou ao seu descaso com minha piada sobre o cara das casas Bahia (“quer pagar quanto?”) ter morrido em uma explosão de ofertas, saí da aula mais cedo. Mandei mensagem aos amigos perguntando se havia cerveja em algum lugar. El Figo respondera:

CLARO QUE TEM, NO BEIRUT. TEM CERVEJAS E QUIBES. E EU NÃO SOU CERVEJA NEM QUIBE.

Encontrei El Figo em uma mesa com cinco caras e uma garota. “Oi pessoal!” - Gente esse aqui é o Eduardo – disse El Figo. Em seguida me perguntaram se eu tinha algum trauma de infância, pois lá nascem todos os traumas. Decidi que se não saísse logo dali, acabaria por arrumar um.

Nunca saberei se estavam tentando seduzir alguém. Mesmo assim, não entendem bulhufas sobre o tema. Juggler, o guru, ensinou que para se gerar intimidade, deve-se fazer como velhos amigos: eles conversam por meio de afirmações, não por perguntas.

Não sabendo disso, começaram a me interrogar sem o menor escrúpulo. Um deles ficava segurando meu braço o tempo todo.

- Quer dizer que você é Eduardo e ele também? - a mãe de El Figo o registrou como ‘Carlos Eduardo’.

Com essa velocidade de raciocínio, meu chapa, você deveria tentar ser procurador da NASA. Pense sobre isso com calma.

- Você é de Penápolis? Onde fica?

Perto de Plutão. Conheço um vôo charter só de ida, se tiver interesse. Você seria simplesmente genial como morador plutônico.

- Não é a cidade da Sabrina do Pânico? Como ela era antes da TV?
Toda verde e peluda.
- Você tem cara e cabelo de pegador.

Em primeiro lugar, mulheres não são coisas para se pegar, meu chapa. Se você não gosta, eu gosto e ponto final. Mulheres devem ser conquistadas. De modos que, você não entende de nada, então por favor cale a boca, e tire a mão do meu braço. Em segundo lugar, deixe meu cabelo em paz.

- E o outro Eduardo (El Figo) tem cara de desleixado, menino de Brasília.

É óbvio que El Figo é um desleixado. Dê uma sacada ao seu redor e veja bem onde ele me colocou. Esse não é ponto alto da minha década, pode ter certeza disso.

Para melhorar, um deles pergunta: “Quem está dando C.U. no departamento hoje?” A mesa vai abaixo de gargalhadas.

Mas que droga, caras. Cadê a aura de glamour? Para aonde foi a dignidade de pessoas como aquele cara do filme Milk, ao responder sobre a impossibilidade de dois homens terem filhos: “Deus é testemunha do quanto estamos tentando”. Inúmeras pessoas as quais lutaram tanto para conquistar seus direitos, o direito de apaziguar um gorila arraigado de machismo feito eu.

Descobri tarde demais que C.U. significa “Comunicação Universitária”. Bando de sacripantas. Não sabem que com essas coisas não se brinca?

- E você está solteiro?
El Figo, você vai pagar caro por isso, pode apostar. Olhei para frente, e vi o Ozzy Osbourne, um garçom famoso da cidade. Olhei para a direita, e vi o Iggy Pop, em pé, olhando fixamente para mim. Desviei rapidamente a cabeça para minha esquerda. Descobri o Robert Redford, jogando-me um olhar penetrante. Os deuses devem estar loucos. No outro lado do meu ombro está Clint Eastwood, acendendo um cigarro. Ao menos descobri que Bob Redford está paquerando é o Clint.

- Você é solteiro ou namora?
- Estou tranquilo.
- Tranquilo? – O Iggy Pop começou a morder o beiço e fazer careta. E continua olhando.
- É, o oposto de tenso.
Não é verdade. Mas não estar nos braços do Ozzy ou do Iggy Pop já significa muito para mim neste momento.

Despedi-me amigavelmente. Saí de lá com uma enorme culpa. Algo que não sabia direito explicar. Estava me sentindo um verdadeiro brucutu texano. Já antevia a enxurrada de emails: convites para participar do congresso de alguma igreja ultra-ortodoxa, ou para ser queimado em praça pública em um banquete das minorias. Mas eu não falei nada a noite inteira, e fui cortês nas respostas! Há o que se pensa e há o que se fala.

Ao deitar, lembrei-me do último filme dos irmãos Cohen, Queime Depois de Ler. Um instrutor de academia, por acaso, acha um CD com informações cujo dono é agente demitido da CIA. Dados que não serviam absolutamente para nada. O agente apenas queria escrever um livro autobiográfico.

O instrutor acha que o CD é valioso, e decide extorquir o agente. Todos os trambiqueiros do pedaço descobrem e tentam tirar vantagem. Começa a se desenrolar uma série de assassinatos. Os caras envolvem a Rússia, os chineses, a CIA e um oficial de justiça cujo objetivo é fazer uma cadeira de balanço com um dildo acoplado.

Ao final, resta uma lama só para todos os lados. Na última cena, entra um assessor da CIA no gabinete do diretor e fala:

- É, acabou tudo pelo avesso. Pelo menos aprendemos nossa lição.
O diretor termina:
- Concordo... Mas pelos céus, o que foi que nós fizemos?

*Eduardo Pastore é Administrador de Empresas, músico e recebe aconselhamentos filosóficos de Pec, seu cachorro.

3 comentários:

Unknown disse...

Iggy Monkey Pop! mto boa ilustração!!!

Um dos mais divertidos devaneios do Pastare...

Rebeka disse...

Eu morrooo de ri SEMPRE com essas divagações que encontro por aqui.. rsrsrsr
Bjooo pra vcs!

Lucas disse...

Putz,

Cair no gayrute com um penteado desses por acidente é o mesmo que o Sharon passear desapercebido pela faixa de gaza.

Mto bom!

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