18 fevereiro 2009

Era só chover


Sua alegria contrastava com a da vítima, momentos antes do ataque. Qual motivo teria para tamanha brutalidade? Ninguém sabia dizer, mesmo porque ninguém suspeitava dela. Não acreditariam que de mãos tão fracas e enrugadas e ossos tão velhos e quebradiços sairia alguma força para matar quem quer que fosse.

Mas ela fazia, e o fazia sem ressentimentos. Esperava a noite cair, vestia-se sem pressa e com a cerimônia pomposa que lhe lembrava os tempos bons de passeios na praça e cinema antes das dez. Punha-se, então, a andar pela cidade escura. Estava ali para aquilo, agora, era só chover.

A umidade, de certa forma, não a impedia. Não era uma questão definida, encerrada, cuja obrigatoriedade de uma levasse à outra. Mas assim preferia. Gostava do cheiro da terra molhada, do final de tarde com céu escuro e nublado, da noite iluminada por raios. Havia uma diferença no ar, um clima de suspeição que impunha medo às pessoas e as obrigava à reclusão. Era aí que ela agia.

Mas não atacava qualquer um. Era criteriosa. Gostava principalmente das conhecidas, amigas de longos papos que, de alguma forma, a contrariavam. Ficava furiosa, mas sabia esperar. Planejava todos os passos e as crueldades que faria, dependendo do quão brava a vítima a deixava.

E eram assim esses dias. Não levantava suspeita. Já se acostumara a fazer-se surpresa toda vez que alguém lhe anunciava o terrível acontecimento. Vestia-se de preto, colocava seu melhor sapato e ia à casa da vítima prestar condolências à família. Claro, não esquecia do guarda-chuva, pois, com esse clima doido, ninguém sabe quando pode chover.

2 comentários:

nanddy disse...

Parabéns tio Elder!!

Muito boa a história. Melhor ainda a ilustração!
Mas eu já suspeitava dessa velhinha "inocente".

=)

Bjos

Unknown disse...

Irado Walter!

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