“Um belo rosto que passou é como o encanto de um novo país que se nos foi revelado por um livro. Lemos seu nome, o trem vai partir. Que importa se não partimos, sabemos que existe, temos uma razão a mais para viver”. Proust.
Barbearia
Não se intimide e nem pense duas vezes. A primeira coisa imprescindível para a viagem é ir ao barbeiro um dia antes da partida. Marque horário, sente-se naquela cadeira giratória, e deixe o barbeiro colocar aquela camisa de força em você – se tem cachorro em sua casa, vai entender como ele se sente quando você coloca o pulôver de frio nele.
Passe os olhos na Playboy do mês, que apesar de ter saído há uma semana, já está totalmente amassada. Se o assistente do barbeiro, aquele que você nunca teve coragem de cortar o cabelo, sair do banheiro com a revista na mão, procure a Sexy. Ela está com boas reportagens também, como lançamentos das motos do ano, loções pós-barba, e aquelas fotos com celebridades desprevenidas. Essa é a parte mais bacana, e desconfio que não sou o único a achar isso.
Se o preço do corte for R$ 14,00, desde 1998, de bom grado dê R$ 15,00 e deseje bom Natal.
O imponderável cálculo das cuecas
Abra a gaveta das cuecas. Tire as meias que deveriam estar na gaveta das meias. Quantas cuecas levar? A partir daqui a ciência se mistura com o místico.Sugiro o seguinte cálculo:
São quantos dias na viagem? Multiplique por dois, pois você tem que contar as cuecas que usará na balada. Some duas, pois há o dia da ida e o da volta. Subtraia três, porque algumas cuecas das baladas poderão ser usadas no dia seguinte, sem ninguém saber disso. Some duas sungas se o destino é a praia (não tente levar apenas uma). Se você sabe lavar as cuecas no banho, que nem o seu avô fazia, subtraia uma. Não mais que isso, porque você vai entender que usar cueca sem amaciante não é tão bom. Se o resultado não deu 8 ou 11, você errou a conta. Refaça o cálculo.
Mala ou mochila
Mala é coisa de velho. Compre um mochilão backpacker, daqueles de R$ 290 paus. É muito mais romântico. Você dará a impressão que vai passar três meses no sudeste asiático.
Abra o manual e leia atentamente as instruções, duas vezes. Quantos litros cabem, como colocar todas aqueles prendedores, como regular as amarras e equilibrar o peso, quais os compartimentos secretos e se ele é impermeável a chuvas e furações.
Daí faça a sua primeira viagem. E você vai descobrir a razão dos seus pais usarem mala. Você vai perceber que até o calção de banho ficou amarrotado, e você não trouxe ferro para passar roupa, porque isso não estava escrito no manual.
Canivete suíço
Sempre, aconteça o que acontecer, leve seu canivete suíço. As coisas que você poderá fazer com ele são tantas quanto as ferramentas dele. Mesmo que você só consiga puxar a tesourinha, que está estragada porque você tentou cortar a unha do dedão do pé, que nem cutelo consegue cortar. E há o saca-rolha. Depois de você enfiá-lo todo na rolha, e definitivamente não conseguir puxá-la, poderá usar o seu canivete como alça do vinho. Beber não vai dar, mas terá a vantagem de ter uma garrafa com alça para levar onde quiser.Camiseta branca
A camiseta branca, básica, deverá ser usada no dia da viagem. Seja de avião, ônibus ou carro, usar a camiseta básica é com absoluta certeza a melhor opção. Quando estiver com mais 30 anos, poderá inclusive usá-la para dentro da calça, ou tanto melhor, da bermuda, e ninguém poderá lhe encher por causa disso. Ponto.
Sacolinha de sanduíches
Depois que você cresceu, você passou a brigar com seus irmãos para ir no banco da frente. Só então descobriu que sua mãe levava nos pés aquela sacola gigante, cheia de maçãs, guardanapos, sanduíches de presunto, bolachas cream cracker piraquê e papel higiênico. A sacola poderia ser jogada de pára-quedas por um avião da ONU e abastecer algum país da África. A sacola é tão grande que você não sabe se enfia o pé na janela, na maçã ou no papel higiênico. A conclusão é que ir atrás é melhor mesmo.
Mas a sacolinha de sanduíches se apequena perto da Caixa de Pandora. A Caixa de Pandora é invenção do Seu Tonico, pai do Elder. São precisos dois homens para carregá-la. A Caixa serve para transportar todo o cardápio da fazenda. Do bom e do melhor. É um verdadeiro estoque de alimentos para você não precisar mudar a sua dieta durante a viagem. Inclui 2 quilos de queijo de cabra, um tacho de goiabada, doce de leite, uns dois tipos de aves, uma galinha caipira moqueada (Parêntese: quando a galinha moqueada saiu da Caixa, lembrei-me no ato do bugio moqueado do Monteiro Lobato. Só então percebi que para moquear uma pessoa, o cara tem que ser realmente malvado.) e por fim, um tapete de costela de cabrito. Um tapete que poderia forrar qualquer chão de sala. Dobrado.
Se você não é do sertão baiano, não tente levar uma Caixa de Pandora. Muito menos abri-la.
Pão de queijo
Uma das coisas mais estimulantes é comer durante o trajeto. Ainda mais se você já conhece os postos de gasolina. Tanto quanto estimulante, todavia, é uma atividade arriscada. Os botecos de rodovia não se escusam a oferecer uma perigosa maionese ou aquela indescritível coxinha (não digo aquele salgado empanado; refiro-me à parte do frango, com cara de submarino, normalmente submersa em três dedos de óleo do tempo do Getúlio Vargas).Um alimento que não faltará nas estufas de salgado é o pão de queijo. Você terá a chance de fazer um ranking dos melhores daquela estrada. Um verdadeiro tour de France do pão de queijo.
São duas as vantagens dessa nobre invenção mineira:
1) É relativamente seguro. Mais relativamente que um pastel de carne. Faça um favor a si mesmo e não coma pastel durante a viagem. Assim não ficará regurgitando e assoprando na nuca do motorista. Se você quer comer pastel, faça o seguinte: quando chegar à cidade de destino, vá numa manhã de sábado até a feira de verduras. Dê uma boa sacaca nas alfaces, coentros e cebolinhas das barracas dos japoneses. Pegue um pedaço de melancia, do cara que usa brilhantina no topete. Roube umas uvas rubi e cuspa o caroço no chão, que nem todo mundo. Entre na fila da pastelaria que é dentro de uma Kombi, e peça um de queijo e encha de molho de pimenta. E claro, para acompanhar, garapa gelada com um pouco de limão. Feita com o motor da Kombi.
2) Você não precisará comer Elma chips, e ficar cheirando a queijo roto.
Aeroporto
Pense bem. Aeroporto é o local mais legal da cidade. Já fica excitante quando você vê de longe os aviões pousando. No ar, um constante cheiro de querosene. Aeromoças maquiadas e pilotos com óculos Raiban e roupas bacanas, desembarcando para pernoitar na cidade, andando com malinhas iguais. Nada como entrar na livraria e folhear mil livros, sentir seus cheiros e ler suas orelhas. Pedir um expresso com açúcar mascavo. Se você estiver em Curitiba, verá que na lanchonete os pratos têm nome de aviões. Simplesmente genial chamar um bife com fritas de Jumbo.
Todas aquelas pessoas que estão juntas naquele mesmo local, em duas horas estarão em cidades há milhares de quilômetros. Outra temperatura, outra luz solar, outros sons, outra língua Sem falar quando ocorre a maluquice de mudar de horário. Pegar um táxi e ver a confusão na rua se desenrolando.
Algumas coisas
Compre aspirinas. Você vai precisar, acredite.
Bote na mala um livro do Jack Kerouac.
Escute no começo da viagem o álbum Howl, do Black Rebel Motorcycle Club, especialmente se estiver nublado.
Vá ao cinema na outra cidade. Se puder, vá ou volte andando.
Converse com o taxista sobre o tráfego local.
Ligue para seus pais assim que chegar, não deixe para o outro dia.
Procure um bom restaurante italiano, e peça um filé a parmegiana, com coca-cola e gelo.
Passe em uma banca e leve a última edição da revista MAD.
Chegue no quarto do hotel, e só de cuecas vá até a varanda, e fique olhando o movimento na rua.
Tome banho às 17:30. Faça a barba com cuidado e passe loção. Penteie o cabelo e saia para dar uma volta. Às 18:30, compre uma cerveja e fique olhando o movimento na rua.
Não corte o cabelo em outra cidade. Essa é uma das razões para você ir ao barbeiro um dia antes da partida.
Entre em um cyber-cafe e mande um e-mail aos amigos.
Não ligue a televisão.
Leve uma goiabada cascão aos seus anfitriões.
Já falei para usar camiseta branca na ida? É muito melhor. Ponto.
Eduardo Pastore é músico e recebe aconselhamento filosófico de Pec, seu cachorro.






2 comentários:
Muito bom o texto do vaca... Me identifiquei muito, menos na parte das cuecas... que nojo!
auihaiuahuiahauiahi
Parabéns pros dois! Nem fiquei com preguiça de ler... e juro que não vi só as ilustrações...
(rs)
Bjos
Ah!
Odiei as baratas!
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