13 abril 2009

Pensamentos Insignificantes e Nada Edificantes Sobre Viagens de Verão - Por Eduardo Pastore



Aquele cômputo, feito na viagem de volta.

Concorde com uma única verdade debaixo do Sol: o verão é um grande engodo. Simplesmente acaba rápido demais. As imagens registradas em sua memória guardam pouca relação àquelas imaginadas durante a viagem de ida.

Ainda é novembro, e você já está gastando mais minutos do que deveria no cafezinho do trabalho. Perde o seu tempo e o do colega, enchendo-lhe com sua grande imaginação sobre aquela praia em Santa Catarina, onde vai passar o ano novo. Claro, você acabou de ler, na Playboy do barbeiro, o seu destino está na lista das melhores do país. Descrito pela seguinte legenda: “A praia das maiores gatas no país”.

Nesse embalo, sua mente começa a lhe pregar uma peça. Começa a ter alucinações demais sobre as férias, e sua mente distorce tudo ao seu redor. Como se o ano inteiro só existisse para culminar em duas semanas de praia.

No final, na viagem de volta, você percebe que as férias não se pareceram com o que tinha imaginado. E de certa forma, inexplicavelmente, foi até melhor.

Mas não vá pensar que alguma daquelas belas garotas, que sempre existem nos aviões, se sentará ao seu lado. Muito menos que a sua mala será a primeira a sair na esteira do desembarque.

Areia

Se você está em Guarajuba - BA, vai perceber imediatamente que impera na praia um clima de guerra civil. Há tantas pessoas jogando frescobol ao mesmo tempo, que não faz a menor diferença em que bolinha e para quem vai se rebater.

As crianças da escola de surf se transformam em formidáveis torpedos. Quando você menos esperar, estará participando ativamente das aulas, afundando nas ondas para desviar dos pequenos diabos. E você não se matriculou.

Já em Guarda do Embaú - SC, ao final da temporada, você estará diplomado em engenharia costeira. Porque lá não inventaram a barraca de praia nem garçom. Terá de levar canga, guarda-sol, isopor abarrotado de cerveja e gelo, amendoins. Sendo otimista, em duas horas terá conseguido se instalar. Isso se não tiver de estacionar o carro. Aproveite, pois só terá mais 15 minutos antes da praia entorpecer seus sentidos.

Você e seus vinte amigos se espremerão na sombra mirrada do guarda-sol. Faz calor demais e não consegue pensar em mais nada. Toma um banho no mar gelado, que acaba de trazer um corrente polar especificamente para você.

Depois se senta com uma banda da sunga na areia e a outra na canga. Que está cheia de areia. Quando for lavar a sunga no chuveiro da casa, vai transformá-lo em um aterro marinho, já no primeiro dia.

A boa conclusão, é que praia é como uma pizzaria nova em cidade do interior. No começo, você quer ir todo dia. Na segunda semana, vai se der.

Então se lembra daquele plano de mudar de cidade.

Lembranças.

No chão do quarto, sua mala ficará tão inacessível, que você preferirá se acostumar à idéia de usar as mesmas peças de roupa. Aquela mala, que demorou mais de hora para ser arquitetada. No embarque, marcou uns gordos 23kgs.

No terceiro dia, ninguém mais fecha a mala. Dá-se início ao pior: o inevitável intercâmbio de conteúdos.

Ao chegar em casa, faça um favor a si mesmo e não desfaça a mala na frente da sua mãe, muito menos da sua namorada. Uma calcinha rosa pode pintar sem você ter culpa no cartório, e vai ser difícil explicar que não, aquilo era apenas uma lembrancinha da praia.

Até mais, e Obrigado pelos Peixes!

Os dias de chuva fazem parte do verão. São desse mundo, e esse é o nosso mundo. Acostume-se com a idéia de que terá de inventar passatempos ao lado dos amigos. Não dê corda solta à sua imaginação, ou vai se arrepender. Principalmente se está ficando bêbado mais de uma vez por dia.

É alta a chance de um desprevenido sentir atração por inventar coreografias inusitadas. Nada mais fatal. O universo é regido por leis estranhas e que escapam à nossa compreensão.

Se alguém for jantar no restaurante no fim do universo, vai descobrir que há intrincada relação entre danças estúpidas e eventos climáticos. São conexões estabelecidas em algum tipo de programa sideral de auditório. Daqueles que a pessoa fica trancada em uma cabine dizendo “SIM!” ou “NÃO!”, escolhendo se quer trocar um prêmio pelo outro, sem saber qual é o outro.

Não desconfiando dessa poderosa gravidade cósmica, você pode se pegar sem fazer nada, enquanto aguarda suas amigas prepararem a macarronada do jantar. Para auxiliar no cozimento, você pode decidir fazer uma coreografia. Tal como os índios realizam a dança da chuva para inaugurar a sua colheita.

Se você não é Douglas Adams ou um coreógrafo com especialização em meteorologia, não saberá se sua dança invoca cozimento de espaguete, erupção de vulcões ou um tsunami no Mar Morto.

E enquanto estiver dançando, o universo te perguntará:
- Você quer trocar, você quer trocar... Um prato de macarrão, por dois dias de ciclone tropical?

E você dentro da cabine, sem escutar nada. A platéia grita efusivamente “NÃOOOOOO!”

E você acabará se entregando, para a glória do apresentador do programa:

-“SIMMMMM!”

A Bíblia dos Desgostos

As pessoas não gostam das mesmas coisas. “E ainda bem que não, imagine como seria o mundo?”, se adiantaria algum correto politicamente. Com toda certeza esse alguém não é El Figo. El Figo detesta boa parte dos gostos que correm entre o populacho.

Não tente contra argumentar, porque você vai perder. Em vez disso, poderá experimentar uma boa dose de filosofia cotidiana ao concordar com aquele ponto de vista do avesso.

Estimule-o a clarear sua visão turva e inebriada pelos gostos usuais. Pergunte de seu raciocínio matemático para embasar seu desgosto por lasanha. E enfim, você vai descobrir que todas as outras pessoas é que estão erradas mesmo, e coitadas, não sabem que não se deve comer carne com queijo. Em hipótese alguma.

El Figo descobriu que não gostava de praia após 13 dias de férias.
El Figo não gosta de qualquer coisa à milanesa. Nem bebe cerveja Bohemia.
Não pretende ter um barco quando ficar velho.
El figo não come biscoito doce se tiver triscado num farelo de bolacha salgada.
A única certeza é que El Figo gosta de picolés. Come até cinco ao dia.

Para evitar que outros lhe lasquem um pedaço de picolé, El Figo compra dois de uma vez.

Se você quiser estreitar uma relação nada edificante com El Figo, faça o seguinte. Fale que ele come picolé demais, e que nunca viu alguém comer tantos picolés. Depois de uns minutos peça uma mordida. Não aceite o picolé sobressalente, que ele guarda a tiracolo.

E enfim, prepare-se para o desfecho: “Ah, agora quer meu picolé... mas você sabe... você sabe o que você tem mais que eu?”.

As-salaam-aleykum

Em uma transgressão abusiva, essa milenar expressão árabe se encolheu para Salamaleiko - uma saudação de sovacos, em portunhol selvagem.

Quando você completa um quarto de século, começa a se predispor a coisas estranhas. Uma delas é fazer essa saudação no meio da rua. Outra, é acreditar em seu amigo falando que raspar o sovaco é uma coisa boa. A conclusão lógica disso é que você vai arrasar nas areias, mostrando seu salamaleiko depilado.

Se você é mulher, já descobriu que após raspar o salamaleiko, não se deve passar loção pós-barba. Se você é homem, faz a barba. E conclui logicamente o contrário.


Experiências Filosóficas de Verão

• Cumprimente as pessoas com despedidas e despeça-se com saudações.
• Escove os dentes antes das refeições.
• Tente ficar bêbado mais de uma vez por dia.
• Ande na praia com o guarda-sol armado, contra o vento.
• Se puder, vá com a companhia aérea das linhas inteligentes, e volte com a do tapete vermelho. Compare a aterrissagem das duas. No caso da primeira, você imediatamente se lembrará de um filme que o piloto vira geléia ao pousar em outro planeta. Se prestar atenção, dá até para ouvir a comissária falando: “Sres. Passageiros, apertem os cintos, o piloto sumiu.”
• Compartilhe os resultados das baladas com os amigos. Essa é a melhor parte.
• Enquanto aguarda no embarque, ao fazer escala em outra cidade, ligue para seus colegas e fale que está indo à praia. Deseje feliz ano-novo. Ao voltar, traga presentes para eles.
• Quando o avião estiver prestes a estacionar, faça uma contagem regressiva mental, e veja os passageiros se ejetarem de suas poltronas, todos juntos.
• Se conseguir chegar antes das malas começarem a correr na esteira de desembarque, não se iluda. A sua não será a primeira.

3 comentários:

Unknown disse...

E a 'lenda' da calcinha rosa se perpetua no espaço virtual..

Eu colocaria um dos famosos 'adendos' sobre os registros póstumos do verão e seu mal uso no youtube! :)

Muito boa Elder; mto bom, Pastore!

nanddy disse...

Vacones....

Muito bom seus textos. Morro de rir aqui.
Continue escrevendo pro blog do "Walter" viu!

=**

Elder,
Muito boa a Ilustração.
=)

Parabéns rapazes!

Cecis Lindgren disse...

Parabens aos dois! Melhoraram minha tarde!

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