07 março 2009

Conto de Natal - por Eduardo Pastore


Na quarta-feira à noite, quando voltava de Penápolis, pude fazer uma das viagens mais hostis de minha vida. Para começar, fiquei esperando 2h30 o ônibus no meio da estrada, em um posto de gasolina semi abandonado, com a incerteza de que o ônibus pararia para me apanhar. Ao chegar finalmente, o motorista fez aquela cara no melhor estilo pague para entrar e reze para sair.

Descubro, o veículo saiu de Maringá - PN, e o bagageiro estava lotado de muamba. Ônibus, portanto, de sacoleiro. Minha mala teve de ir na cabina do motorista até Rio Preto. Em meu acento, residia uma senhora com seu filho no colo. Se há uma coisa que não gosto, é disso. Chegar e encontrar minha poltrona ocupada. Daí você tem de se deslocar para o acento de outro. E o outro invariavelmente vai chegar e falar, ‘essa poltrona é minha’.

Seja ônibus, show ou teatro, essa dinâmica mostra o quanto o ser humano se parece mais com uma ameba do que com um chimpanzé. Essa é a filosofia de vida daquele pirata, o lobo do mar, de Jack London. As amebas maiores engolem as outras. E eu estava começando a ser engolido por aquele ônibus.

A mulher da minha poltrona indaga-me se posso sentar em outro lugar. Pensei: “Não, minha senhora. Se eu quisesse viajar em outra poltrona, não teria comprado a que você está sentada, há uma semana atrás”. Achei sensato ficar em paz com a população local, que a essa altura estava toda de olho em mim, em busca de um entretenimento barato. Procuro o único acento vago.

Nada contra meu vizinho, a princípio. A não ser que ele estava nitidamente exalando odores injustificáveis. E estava completamente esparramado pela poltrona, corpulento, invadindo o espaço meu de direito. Sentei, e tentei desapegar de tudo ao meu redor. Liguei meu Ipod da China, e fiquei brincando de construir tubulação hídrica no celular.

O cara ao lado, vendo que eu estava muito a fim de bater papo, perguntou: “Você também vai para Brasília?” Nesse momento, desapareceu toda a minha esperança dele saltar em alguma parada antes. Se naquela noite, o cidadão já cheirava hostilidades, a manhã seguinte seria uma epopéia de odores. O império dos sentidos, ao avesso.

Não obstante sua aversão a banho e desodorantes, contava com um truque na manga. Nas paradas ele trazia uns pastéis de carne, pães de queijo frios, e coca -colas quentes. Fazia questão de comer e beber lá dentro.

Outra que eu não esperava, ele insistia em invadir meu espaço aéreo. Roçava seu braço e sua perna em mim. Chegou ao cúmulo de colocar o seu pé grande no meu descanso de pernas. Um despautério. Para não falar da eterna disputa de quem vai ficar com o apoio do braço, que coisa insana.

Ele sempre ganhava, simplesmente porque não se importava em ficar com o braço encostado no meu. Ao começar a disputa, eu jogava a toalha, e exprimia meu ombro. A solução foi posicionar a poltrona menos inclinada que a dele. Definitivamente é ruim para dormir. Àquela altura do campeonato, foi o melhor a ser feito.

Em Rio Preto, houve troca de motoristas, e essa foi a parte boa da viagem. Antes de dar partida, o novo motorista, um parrudo piloto em seu uniforme engomado, veio contar o número de pessoas a bordo. Estacou-se à frente do corredor, e disparou um improvável discurso.

"Boa noite senhores passageiros, meu nome é Carvalho, codinome Tomé. Serei seu motorista até a cidade de Catalão, aonde chegaremos em cerca de 5horas e 35minutos. É aconselhável que utilizem o sinto de segurança, disposto em todas as poltronas. Segundo a legislação, é proibido fumar dentro do ônibus, inclusive no sanitário. Esse veículo possui cinco saídas de emergência, duas laterais e três no teto. Por favor, leiam atentamente as instruções sobre a saída de emergência. O ar-condicionado oscilará entre 22 ºC e 25 ºC. Tentarei, na medida do possível, desviar dos buracos, que os senhores sabem, existem nas estradas. O veículo deve sacolejar um pouco. Desejo-lhes uma boa viagem, e que sempre, Deus esteja conosco".

Os muambeiros e eu estávamos todos boquiabertos. A oratória foi impecável. Nem a tenente Uhura, do Star Trek, fez algo assim pela tripulação da Enterprise. Foi uma verdadeira ode ao viajante. Quando ele fecha a porta, um grupo entusiasmado de baianos lá atrás, grita: DÁ-LHE TOMÉ! E o meu maltrapilho grupo de sacoleiros vai às gargalhadas.

E essa foi a única alegria. Dali em diante, todos começaram a usar indiscriminadamente o banheiro. Havia um letreiro digital na frente do corredor, apontando as horas. Se alguém adentrava o sanitário, surgia em letras vermelhas e garrafais ‘WC OCUPADO’. Quando um sujeito daqueles levantava, eu rezava que fosse só pegar água. Da 0:00, até chegar em Brasília às 10:00, contei sete vezes ‘WC OCUPADO’. Um luxo para poucos.

Finalmente o veículo adentrou o Distrito Federal. Àquela hora já havia descoberto que meu vizinho tinha trava na língua e a voz fina. Atirou-se a fazer uma série de perguntas retóricas, sem o menor pudor ao meu resguardo matinal. ‘Como está o trânsito? O negócio tá ruim, hein? Foi uma batida, você viu’? Intercalava as perguntas com umas bocejadas horrendas, pois em nenhum momento desceu para escovar os dentes. Coisa que eu fiz duas vezes na viagem.

Como um Sherlock Holmes do pântano, inquiriu-me a grande pergunta final: ‘Você também vai descer na rodoviária’?

O que os profetas bíblicos ensinam é que, idéias ruins, assim como pulgas, pulam nas cabeças de toda a gente. Aos bons, cabe o dever de não lhes fazer ninho. Apenas pensar uma resposta, portanto, não deve fazer tanto barulho às leis do universo.

Em um exercício de fúria, imaginei-me como o intrépido capitão Haddock, parceiro de Tintim. "Com mil milhões de macacos! Eu vou, seu sacripanta, porque simplesmente não há outro lugar para descer daqui até essa maldita rodoviária, Mussolini de carnaval. Mas você, coruja mal empalhada, pegue sua mala e os seus pastéis, pois você vai voar pela janela é agora, astronauta de água doce!".

Cheguei em Brasília, com um saldo de sono de apenas quatro horas, durante uma viagem de catorze. Algo conseguido com muito custo, à base de Dramin- B.

Lembrei de Alatriste, espadachim espanhol do século XVI. Quando jazia ao chão, à beira da morte, completamente ensanguentado, trespassado pelos cortes da espada de seu duelista, falou simplesmente: VIDA DE MERDA.

Eduardo Pastore, o Vaca, é músico, administrador de empresas, e recebe aconselhamento filosófico de Pec, seu cachorro.

2 comentários:

Unknown disse...

Elder, parabéns!!
Adquiri o hábito de passar pelo blog de vez em quando pra curtir as novidades... Ilustrações de qualidade e muita criatividade, humor e bom gosto nos trabalhos. O Pec anda cumprindo bem o papel de conselheiro do Pastore, os textos estão ótimos...rs
Muito orgulho dos meus amigos talentosos!
Bjos!

Will I am disse...

Vacones, só faltou a farofada no ônibus. Em várias passagens de ônibus, descobri que não adianta rezar, você precisa agir.

Agora lembre-se: nunca pegue a última poltrona, além de não inclinar, você fica ao lado do lugar que nem o Harry Potter ousa pronunciar.

Ao entrar em um ônibus não se esqueça de tirar todo o preconceito e parâmetro que você possui de referência sobre transporte de animais ou algo parecido.

Agora, a pior experiência que já tive, foi uma viagem para Porto Seguro onde meu colega e malabarista conseguiu vomitar em 7 pessoas. O comentário da diretora foi o seguinte: Se fosse em mim eu tinha dado uma porrada nele.

Bom, é isso aí, depois a gente se fala!!
Will i am

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