28 fevereiro 2009

Crônica proibida – Como a explosão de um bicarbonato de sódio mudou meu dia - por Eduardo Pastore

“Você simplesmente nos negou o direito de sermos felizes”. Comecei o dia pensando em como escreveria uma carta endereçada à minha ex-namorada daqui a 50 anos. “Estive ao lado de tantas mulheres, e a nenhuma me acostumei. Sinto-me vazio. Meu coração não está apaziguado. Pude ver tantos casais se formarem. Nenhum experimentou o que tivemos. E eu não entendo: o que você esperava? Quem você esperava? Não sou tão evoluído. Sinto vontade de rasgar o cara que está ao seu lado”.

Curtia esse pensamento tenebroso ao som de Hallelujah, versão de Jeff Buckley. Pincei imagens dele no Google. Nunca vi um cantor tão triste, em todas as fotos. Leonard Cohen tem uma mente brilhante, mas Jeff teve uma alma brilhante. Essa frase estava escrita no Youtube. E tive de concordar.

À minha frente, um caminhão de livros para estudar. Matérias a cumprir. Revisões, resumos. Fiz milepoints para cada uma. Prova em uma semana. O ano se abrindo. E eu estava paralisado.

Precisava fazer algo a respeito. Algo que me agitasse. Experimentei andar na chuva com calma. Da primeira vez funciona. Quando você tenta sair e voltar, acaba a graça. Volta o frio, a camisa ensopada. Não funcionou. Vontade de fazer versões para Hallelujah o dia todo.

Depois de ouvir a versão de Buckley, você se dá conta que não conseguirá fazer uma melhor, porque ele fez a melhor versão para voz e guitarra. Com o mínimo, ele foi sublime.

Demoro um pouco mais do que o necessário em um acorde, desafino. A conclusão é que não basta estar triste se você não é Jeff Buckley.

Volto à lei. Nada passa, nem atormentando-me com frases de efeito moral. Estou martelando um prego em meu caixão.

Decido matar a fome, mesmo sem fome. Abro o armário de comidas do escritório. Então eu vi. Parecia que houvera uma nevasca no armário. No começo, achei que era açúcar, e pensei que seria devorado por baratas. Depois vi o pote de Eno aberto e caído. Espalhada a maior quantidade de bicarbonato de sódio que eu já vi. Não era simplesmente um pote derramado. Havia sal de fruta para todos os lados. No teto e nas paredes do armário. Pensei em como Dexter, aquele psicopata do seriado, visualizaria o esguicho de sangue de uma vítima.

A princípio, não quis limpar, ia deixar para a faxineira, que viria quem sabe quando. Abri resoluto o pote de biscoitos de maçã, banana e canela. Estavam mais gostosos do que normalmente. Decidi limpar e jogar fora tudo aquilo. Joguei fora coisas que venceram em abril de 2006. Joguei água nas coisas salpicadas pelo Eno. E todas elas começaram a assoviar a canção de sal de fruta molhado.

Sentia uma alegria simples limpando aquilo tudo e comendo biscoitos. Eis que surge um coro gospel de negras enormes de New Orleans cantando Hallelujah. Batiam palmas e cantavam com aqueles sorrisos de lua. Um bumbo marcava a pausa no refrão.

Aquela versão seria aceita para qualquer fim de filme enaltecedor. Esplendorosa.

Voltei à lei e a acabei. Terei de revisá-la, porque o coral gospel não sai da minha cabeça. Mas bati um milepoint.

Para melhorar o dia, Zé Atkins fez uma conexão para nos levar ao show de uma banda argentina que toca tango & punk.

E enquanto aguardo e escrevo, tive um grande pensamento:

Caras, não se masturbem demais. Ontem fui a um encontro com uma ótima pequena, e estava salivando para aplicar todos os procedimentos de um pick-up artist. Perguntaria se ela acreditava em mágica, e leria sua mão. Depois diria maluquices sobre sua infância. Se errasse, falaria que estava mentindo para mim. E faria o grande teste para provar que você pode fazer uma pessoa falar a verdade com cinco perguntas. Garotas gostam tanto de jogos psicológicos quanto viciados gostam de drogas. E quem sabe descolaria um beijo ou outro encontro.

Mas não, acabei indo desarmado. É como se sua energia vital se perdesse. Você pára de exalar sensualidade, seus feromônios.

Vamos lá caras, nós não somos feitos para engravidar papéis higiênicos. Isso é o que temos, é a nossa essência, é o milagre da vida. E a vida pode ser divertida se você descolar algumas (ou melhor ainda, várias) pequenas por aí. A vida, a vida é mulher do lado e seja o que Deus quiser.

E como experiência, guarde o sal de fruta no armário por um tempo suficiente. Um dia ele explodirá. Não me pergunte como.

Eduardo Pastore, o Vaca, é músico, administrador de empresas, e recebe aconselhamento filosófico de Pec, seu cachorro.

Abaixo, por Daniel Rocha, comentário sobre o texto:

O texto, de fato, me entreteu bastante. No último período do penúltimo parágrafo faltou o artigo "a" precedendo o substantivo "mulher". Não acho q vc deveria esperar chegar aos 76 anos para escrever uma carta para sua ex-namorada. Se bem q o viagra de hj já proporciona grandes momentos, imagine a pílula azul do futuro. Mas seria mais prático mandar um scraap pelo orkut.
Mas vc realmente precisou de uma epifania catalisada por sais de frutas para chegar a conclusão q o bom da vida saõ as minas?! Vc precisa conversar com nosso amigo Mirradjones, portador de uma imensa sabedoria popular, e suas mulheres ainda mais imensas e menos populares!

2 comentários:

Anônimo disse...

Viajou no pózinho branco hehehe

Achei legal de verdade.

Nunca tive DPP (depressão pós punheta).

Vou misturar ENO na essência do meu próximo narguilé para ver se liga, mas me contento se eu sair dançando igual ao Lázaro Ramos no famoso comercial.

Dedadas

Flávio Ricardo Vassoler disse...

Rs. Ler mãos? Falar da infância? Está vulgarizando suas tramoias (perdeu o acento na reforma da língua?) de encantamento? Mas foi olho direito-olho direito???

Gostei bastante. Entretanto, ao contrário do seu amigo Daniel Rocha - provavelmente um caçador, como o autor - é meu encargo, enquanto mulher que não é caça, divergir do primeiro período no penúltimo parágrafo. Rs.

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